28/08/2019 às 10h05min - Atualizada em 28/08/2019 às 10h05min

A origem do medo

FERNANDO CUNHA

Nas tropas de Napoleão Bonaparte, havia um general chamado Jean-Andoche Junot, mais conhecido como 1º Duque de Abrantes e popularmente apelidado de “a tempestade”. Diariamente, Junot enfrentava situações extremas que colocavam a sua vida em risco, como acontece com qualquer soldado ou oficial de guerra. Ele tinha a fama de destemido até que, um dia de batalha, um soldado perguntou a ele se não tinha medo. Ele respondeu que sim, tinha muito medo, mas que, antes de ir para as batalhas, conversava com o seu próprio corpo, dizendo: “olha, agora você está sentindo medo, mas quando chegarmos lá não é para ter medo, ok?” Ele brincava com a situação, mesmo que ela oferecesse risco à sua vida. Na Campanha do Egito, Junot foi ferido em um duelo e, em seguida, afastado do cargo pelo próprio Napoleão e enviado a Arras como instrutor do novo corpo de granadeiros. Junot veio a falecer em 1813 aos 41 anos de idade.

Quantos de nós temos medo de inúmeras situações que jamais colocariam as nossas vidas em risco? Temos pavor de perder o emprego, de falir a empresa, de perdermos o amor de nossos entes queridos, da solidão, da miséria e, principalmente, da possibilidade de ter que falar em público. Encarar uma plateia é a principal fobia dos seres humanos, denominada de glossofobia (do grego: glōssa, "língua" + fobos, "medo" ou "temor"). Uma pesquisa realizada em 2015 pelo jornal britânico The Sunday Times revelou que o “receio de falar em público” é o maior medo de 41% dos entrevistados, ficando à frente do temor de conviver com problemas financeiros (22%) e medo de doenças e da morte (19%). Foram ouvidas 3 mil pessoas no Reino Unido. Olhe só! Existem pessoas que preferem morrer a ter que encarar uma plateia. Dá para acreditar nisso?

Inúmeras publicações em diversos países do mundo comparam a importância de falar bem em público com a mesma de se aprender a ler e/ou escrever, ou até mesmo de dominar a matemática. Mas, por que temos medo, já que isso é tão importante para nós? Primeiramente, por que desde pequenos somos educados e condicionados a ficarmos sempre quietos e a não falar com estranhos. Outra razão é o medo de sermos julgados pelos outros. Ninguém gosta de ser julgado. Quando nos apresentamos em público, passamos por três etapas de julgamentos: a primeira é o físico. Todos reparam se somos gordos, magros, etc.; a segunda etapa é a da voz. O público analisa se temos a voz aguda ou grave, se gaguejamos ou temos algum sotaque, etc.; o terceiro julgamento é relacionado ao conteúdo. Em menos de dois minutos as pessoas vão decidir se o que iremos falar é interessante para elas ou não. E não queremos que as pessoas virem as costas para nós, não é mesmo?

Para alguns, falar em público é um problema, enquanto que para outros é desafio ou oportunidade. O segredo está em como encaramos essa tarefa. Inúmeros experimentos revelam isso. Um estudo feito nos Estados Unidos apontou que um grupo de repórteres que considerou o ato de entrar ao vivo na TV como um desafio teve um desempenho bem melhor do que outro grupo que encarou a situação como uma ameaça. Um outro estudo realizado com estudantes universitários, também na terra do Tio Sam, revelou que o grupo que levou na brincadeira a situação de apresentar um trabalho em sala de aula teve uma performance superior à daqueles que levaram a coisa a sério. Ou seja, e soubermos identificar a origem de nossa aversão ao palco e brincarmos com isso, podemos superar essa fobia.

Para isso eu proponho que você, leitor, faça o seguinte exercício: assinale as alternativas à frente com as quais você mais se identifica ao pensar na possibilidade de ter que se apresentar diante de um público. A identificação dos motivos que geram o medo é o primeiro passo para a transformação. São essas crenças que nos levam à autossabotagem. Vamos lá! 1) eu sou tímido; 2) eu não consigo; 3) podem não gostar de mim; 4) não estou preparado, preciso estudar mais; 5) alguém pode me criticar; 6) tenho medo de passar vergonha; 7) posso esquecer o que eu iria dizer; 8) eu não tenho dom; 9) eu não sou bom (boa) o suficiente; 10) eu não gosto da minha voz; 11) as pessoas podem não prestar atenção. Feita essa autoanálise, reflita sobre como promover um diálogo interno, assim como aquele que o general Junot fazia consigo mesmo, e brinque com a situação. Aproveite o momento e se divirta. Tenho certeza de que, em pouco tempo, você se sentirá bem mais confortável diante de seu público. Experimente!
 
          
*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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