25/08/2019 às 08h00min - Atualizada em 25/08/2019 às 08h00min

Quem é mais honesto?

ALEXANDRE HENRY


A revista Science, uma das mais prestigiadas publicações acadêmicas do mundo, publicou em julho de 2019 um artigo com o título “Civic honesty around the globe” (em uma tradução livre, “Honestidade civil ao redor do planeta”). Os pesquisadores distribuíram mais de 17 mil carteiras contendo somas variadas de dinheiro em 355 cidades de 40 países, monitorando as carteiras para averiguar o índice de devolução delas. Uma das descobertas mais interessantes foi a de que, quanto mais dinheiro dentro, maiores as chances de devolução.

Não li o artigo por não ter acesso à Science, mas acessei o resumo e depois encontrei uma análise muito interessante feita por Jonathan Birge, pesquisador do MIT, com base nos dados da pesquisa (http://scripts.mit.edu/~birge/blog/). Acesse-o e você verá dados curiosos levantados pelos autores, inclusive o índice de honestidade por cada país. Já adianto que ficamos na metade menos honesta do gráfico, embora perto do meio. Mas, o que me chamou a atenção mesmo foi um gráfico sobre um tema que já vinha martelando meu pensamento há alguns dias e que até deu título à análise de Jonathan Birge: as mulheres são mais honestas que os homens?

Eu sempre tive a sensação que sim, e aqui circunscrevo a minha opinião ao trato de cada um com o patrimônio alheio. De uns tempos para cá, reforcei minhas convicções ao notar que, em quase todos os caixas aos quais me dirijo para pagar uma compra, encontro uma mulher para me atender. No supermercado, note que quase todos os caixas são operacionalizados por mulheres. Na hora de pagar a conta na churrascaria, lá vem a moça com a maquininha do cartão. Na loja de materiais de construção, todos os balconistas estão com a barba para fazer, mas quem recebe meu dinheiro tem as unhas pintadas e o cabelo preso de forma cuidadosa. Por que será que os empresários preferem confiar o trato de suas finanças a elas? Muito provavelmente, vinha eu pensando, porque realmente são mais honestas. Mas, faltava-me algum dado com suporte científico, ainda que vivamos em um tempo no qual as crenças suplantam qualquer razão lógico-científica.

Foi então que encontrei a reportagem da Science e a análise de Birge. Sim, está lá: 51% das mulheres buscaram devolver a carteira encontrada para seus respectivos donos. Os homens? Apenas 42%. Você pode até dizer que não é uma diferença tão grande, mas ela é, sim, relevante. Você também pode dizer que a pesquisa não fornece um retrato preciso da honestidade por gênero, vez que 17 mil carteiras em uma população mundial que se aproxima de 8 bilhões de seres humanos não são suficientes para configurar uma amostra estatisticamente significante. Pode até ser, mas quando você percebe que o João, dono da padaria, prefere colocar a Rita no caixa ao invés de colocar o Fernando, e percebe que esse comportamento se espalha por praticamente todas as empresas do país, os dados publicados na Science passam a fazer bastante sentido.

Ainda que eu saiba que ser mulher não significa ser honesta no trato com o dinheiro, tenho cada vez mais convicção de que é mais garantido confiar nelas do que neles. Se essa diferença de honestidade é por conta de algum instinto maternal, de alguma influência hormonal ou por qualquer outro motivo, não faço ideia. Falta-me encontrar algum estudo sobre esse tema, que é mais complexo do que simplesmente mensurar se mais carteiras serão devolvidas por homens ou por mulheres. De toda sorte, a convicção que formei já me basta para desejar ainda mais a presença feminina em postos de comando, especialmente da administração pública.

Nesse aspecto, é uma pena que tenhamos tido uma primeira experiência com mulher na Presidência da República tão traumática, embora eu acredite que Dilma Rousseff, do ponto de vista pessoal, é uma pessoa honesta (ninguém corre atrás de aposentadoria do INSS tendo fortuna na Suíça). Continuo torcendo para que os brasileiros não confundam os fatos ocorridos no passado recente, com a ex-presidente, de maneira a desprezar o valor feminino nos postos chaves da administração pública. Acredito que a evolução do nosso país somente será plena se tivermos mais e mais mulheres nas prefeituras, nos governos estaduais, decidindo processos no Judiciário, criando leis nas diversas esferas do Legislativo e (por que não?) governando o país novamente. Vivemos uma permanente crise de valores no trato com a coisa pública e, estou certo, aumentar a liderança feminina é um caminho essencial para vencer essa crise.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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