25/08/2019 às 07h30min - Atualizada em 25/08/2019 às 07h30min

Dois pesos, duas medidas

WILLIAM H STUTZ

Simplesmente andar pela cidade, adoro e sempre faço a pé. Porém, tive que usar o carro, pois havia cantos distantes e opostos a percorrer. Confesso, o dia foi um sufoco enfrentando o trânsito maluco. A falta de educação, agressividade e desobediência à simples regras, como setas, por exemplo, me lembraram um blindado pelas ruas de uma Bagdá arruinada por guerra. O parar em fila dupla é martírio. Tente sair de trás do folgado enraizado à sua frente para ver onde vai parar!

Ninguém, ou quase ninguém, para e com gesto educado lhe permite sair da armadilha. Fiscalização zero. E os tais que colam na traseira de seu carro? Podemos vê-los pelo retrovisor, identificando apenas um capô a bater queixo em fúria como se fosse morder a lataria. As caminhonetes são mestres nisso. Gente urbana com carro de trabalho rural. Ostentação pura. Carros que foram feitos para as estradas de terra passam vida sem nunca ver poeira de verdade.

Sejamos justos, os pedestres não ajudam muito. Desconhecem a tal faixa a eles reservada para passarem de uma calçada a outra em segurança, a despeito de motoristas que quase não param para quem ousa atravessar em sua frente e a pé! Quanta ousadia! E as motos? Para estas, um observar especial. Costuram entre os carros, ultrapassam pela direita, aceleram o que podem e se aglomeram como enxame à frente de todos em sinais fechados. No amarelo, alheios, partem em nervosa revoada por ruas que já não comportam tamanho transitar de máquinas e gente. Saí de casa com pressão 11/7, no meio da manhã 13/9 e na volta do dia 14/9. Claro que são estimativas criadas por minha cabeça confusa diante de tanto desatino. Ou você acha que ando com um esfigmomanômetro no carro? Se bem que hoje em dia temos relógios de pulso que podem fazer o papel do MAPA. Não, não é o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, hoje comandado por ninguém menos do que a líder da Bancada Ruralista. Pode isso Diretor? Pode tudo hoje em dia. Isso não é assunto para agora, pois não quero ficar mais estressado outra vez. O MAPA ao qual me refiro é Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial e que, em meu humilde entender, de ambulatorial não tem nada. Você sai dia adentro com aquele trem pendurado no braço e caixinha na cinta que, de tantos em tantos minutos, te faz lembrar que tem coração.

E por falar em estresse, tecnicamente o tal, de acordo com o IPCS, Instituto de Psicologia e Controle do Stress Marilda E. Novaes Lipp, “é uma reação do organismo que ocorre quando ele precisa lidar com situações que exijam um grande esforço emocional para serem superadas. Quanto mais a situação durar ou, quanto mais grave ela for, mais estressada a pessoa pode ficar.” Ou mais claramente, “o estresse é fundamental para nossa existência. Situações tensas desencadeiam uma reação imediata do corpo, que libera mais adrenalina, hormônio que acelera o coração, e cortisol, substância que eleva a pressão e aumenta o aporte de energia aos músculos.”

Mesmo não estando na selva a fugir de predadores. Ou estamos? Meu amigo, o que tem de aperto por aqui mesmo, haja adrenalina, vem de balde. No dia seguinte, escaldado, deixei o carro em casa. Fui de ônibus até ao terminal central e de lá bati perna para acabar de resolver os por fazer. Pendengas poucas, mas que tomam tempo.

Como nossa cidade pode ser linda vista da rua e não da janela de um carro! As pessoas devolvem sorrisos e bons-dias. Uma ou outra baixa os olhos, mas é exceção. Sentei na calçada de esquina movimentada a observar casal de malabares exercendo seu belo e secular ofício. Depois de um tempo sentaram-se ao meu lado e conversamos muito. Contaram-me histórias de suas aventuras Brasil afora, dos apertos e alegrias de serem mambembes sem destino certo. Fiquei feliz perto de tanta liberdade. Felicidade do outro é um bálsamo para a alma. Sem essa de “inveja boa”. Se for inveja carrega ressentimento. Senti felicidade e leveza.

Findas as tarefas, diminui o passo. Vi-me em avenida onde um maravilhoso desfile de noivas se fazia. Noivas sem pares, em um alegre bailar com vento fresco e seco de um agosto em fim de manhã. O céu, pano de fundo para tanta beleza, tornava o branco ainda mais belo e luminoso. Noivas em fileira. O tapete, o começo do fim da linda florada.

Um ou outro ipê amarelo, pajem no cortejo imóvel em andar, se mostrava para assim dar mais vida ao puro branco. Joguei-me na grama seca e espetada a admirar. Ali me deixei ficar por par de horas. Em suspiro leve levantei e segui caminho, a retirar em pura calma carrapichos que teimosamente queriam comigo voltar para casa. A paz voltou dominar coração e alma.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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