09/08/2019 às 08h24min - Atualizada em 09/08/2019 às 08h24min

“Fagulhas”: almas e sonhos sepultados

DIONE PIZARRO
Foto: Divulgação

Todos os artefatos da guerra, no palco, são criados pelo recurso da iluminação que tece a dramaturgia cênica e ilumina adequadamente a interpretação e relação das atrizes – Juliana Marques e Camila Ruth - com os objetos criados. Assim como nas guerras não há focos de luz nas pessoas, não há dia e nem sol. As luzes são as armas que chovem e relampeiam clarões no palco desbotado e mórbido.

Além das atrizes, a função de Tamara dos Anjos é substancial. Entra no palco e se coloca a posto para conduzir a iluminação, bem como a dramaturgia. Testa luzes, muda os focos dos holofotes. Cria um ambiente bélico que atinge seu ponto quando, de repente, joga a luz na plateia.

Duas crianças entram: uma menina e um menino. No palco, apenas uma bacia cheia de bonecas mínimas. As atrizes, em sintonia recíproca, afinadas com os feixes de luz criam situações com forte consistência cênica, dando vida real às crianças, sem infantilizá-las. O que lhes definem como tais são as brincadeiras, o que resta de ingenuidade, misturado com a rudeza com que tratam seus bonecos e a realidade dolorida de perder os familiares. Nasceram em meio a guerra que não é delas. Nem sabem se há outros mundos. A carga interpretativa nos rostos, que ora riem, nos esforços frustrados por brincarem, e a lividez sisuda com que falam dos mortos reais, com certeza dá nos nervos dos espectadores. O texto econômico, cruel, beirando ao absurdo, sem didatismo e apelos demagógicos, exige das atrizes um bonito, compassado e dinâmico trabalho de corpo.

Começam a apresentação, sentadas no chão, orando. A música monótona dá o tom da ladainha enfadonha. Muda o ritmo e vem a vontade de brincar, dançar. Sorriem. Brincam em meio à guerra. Brincam com o que têm ás mãos: gestos de armas e bonecas.

Vivo/ morto; morto/vivo.
Vamos brincar? Vivo.
Eu acertei você. Morto.
A boneca quebrou o braço.
Sutura.
Não, queima. Assim o roxo não irá crescendo até ficar toda preta. Toda morta. Foi assim com meu primo.

Gostam do cheiro do fogo. Não são sádicas, ainda. Mas não há jardins, nem quintais. Brincam de degolar, matar, ver sangrar. Entretém-se com o que resta do mundo em ruinas. Não há fagulhas de esperança a não ser a terra prometida: o céu fictício.
Ao fim do espetáculo, um regalo cai do céu de paraquedas. É um carrinho com controle remoto. Enfim um brinquedo de verdade. E de verdade, explode e mata.

Morto, fique vivo!
O vivo tá morto. Volta pra contar como é o céu.
Quando chegar lá, vou contar tudo para Deus.
Então também vou com você, afinal lá vamos brincar e reencontrar os nossos.
Não sem antes pegar a boneca, uma mina explode. Morre a última criança.

A iluminadora foca a lanterna nas próprias botas, caminha e computa as bonecas/crianças mortas. De orquestradora da iluminação, transforma-se em um dos soldados que fez parte da guerra. Há um jogo cênico que retira o iluminador de seu lugar para ocupar um cemitério sombrio, cujo único brilho vinha das brincadeiras das crianças.

“Fagulhas”, espetáculo dirigido por Narciso Telles, nasce a partir do prólogo de “Cruzadas” de Michel Azama. A obra é atemporal, posto serem eternas as guerras movidas pelas religiões, pela intolerância e pelo dinheiro.  A perplexidade não é só acionada pelos elementos da cena – como as faíscas incandescentes das bombas, mas pelo que provoca na memória do espectador que acompanha noticiários e pela voz em off relembrando nomes de crianças mortas todos os dias, nas aldeias, favelas, guerras, praias de refugiados.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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