26/07/2019 às 08h43min - Atualizada em 26/07/2019 às 08h43min

Bonecas negras têm alma

CELSO MACHADO

O município de Uberlândia possui distritos, que mesmo tão perto, mantêm características próprias, peculiares. Martinésia é um deles. Preserva hábitos, edificações e saberes encantadores. Seja na culinária com a deliciosa comida do restaurante da Zuleide, a coxinha do bar do ginásio de esportes, os petiscos gostosos do Tabaco e por aí afora.

Mas para mim, Martinésia tem uma figura particularmente especial, dona Elvira Brasil, mais conhecida como dona Negrinha que se tornou famosa por fazer bonecas negras. Ela tem muito mais para encantar quem a conhece do que suas habilidades de costureira criativa e hábil.

Quem compra uma boneca preta da Dona Negrinha recebe uma bela peça. Bonita e marcante, porque ela só faz bonecas negras. Forma de superar trauma da infância em que, neta de escravos, estranhava não encontrar bonecas pretas quando ia a alguma loja de brinquedos ou ganhava uma usada da família dos patrões de seus pais.

Mas se a aquisição for só da peça e não propiciar um encontro, um papo descontraído com ela, vai perder o melhor. O contato com uma figura bonita, com idade em torno de 65, 70 anos, uma prosa e um sorriso que brotam de uma alma pura e infantil.

Nascida num distrito de Uberlândia, Elvira Brasil como é seu nome, quando adulta, virou Dona Negrinha. E se tornou uma personagem marcante, inesquecível. Conversar com ela é melhor que terapia. Porque ela encanta e seduz pela originalidade de seus pensamentos, pela ternura de sua voz, pela beleza de sua alma. Ela é uma brasileira por essência: gentil, bondosa, bem-humorada, disposta e criativa.

Já foi personagem de matérias nas mais importantes emissoras de TV e continua a mesma. Não deixou os momentâneos destaques de sua obra mudar em nada seu jeito tão simples de ser.

Viajar é sempre muito bom. Conhecer pessoas, lugares, culturas e hábitos diferentes que nos acrescentam. Cada vez mais tenho percebido que não é só no exterior que podemos fazer isso. Aqui bem pertinho de nós tem locais e figuras fascinantes que deveriam merecer nossa atenção e visita.

Fico pensando quantas pessoas de nossa cidade viajam constantemente por todas as partes do mundo, outras pagam caro para assistir palestras de auto-ajuda com figuras show que não conhecem Martinésia e nem a Dona Negrinha. Por que ir tão longe deixando de olhar e perceber belezas tão próximas e autênticas que estão aqui, coladinhas na gente?

Não estou criticando quem viaja em busca de conhecer o mundo, apenas recomendo dedicar um tempo também para conhecer nossos distritos e seus tesouros. Enquanto existem. Antes que alguém menos sensível e mais ambicioso resolva implantar neles os tão impessoais projetos do “minha casa, minha vida”.

Que aproveitem para saber enquanto é tempo porque bonecas pretas têm alma. A abençoada alma de Elvira Brasil, Dona Negrinha. Que inspira e nos faz mais leves. Mais humanos, mais simples, mais gente!


*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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