21/07/2019 às 08h00min - Atualizada em 21/07/2019 às 08h00min

O outro lado da tecnologia

ALEXANDRE HENRY

Na semana passada, eu escrevi neste espaço sobre a troca que é feita na internet entre os dados estatísticos dos usuários e os serviços prestados pelas grandes companhias como Google, Facebook e Twitter. Se você não leu, confira lá as razões pelas quais entendo que não se trata de uma troca necessariamente ruim, pois não há tanta perda de privacidade pela quantidade de serviços gratuitos que você recebe.

Depois de escrever aquele texto, porém, deparei-me com duas interessantes matérias que tocam em dois pontos um pouco mais sombrios dos avanços tecnológicos. Tudo, como quase sempre, começa por uma boa causa. O programa Hidden Brain, que sempre cito aqui, lançou no episódio divulgado no último dia 15 de julho uma interessante discussão: “Como a maneira com que soamos dá forma a nossas identidades”. A tradução desse título para o português não fica tão boa, mas a ideia é simples. A partir de casos de pessoas que tiveram mudanças em suas vozes, especialmente por problemas de saúde, o programa discute como isso reflete na imagem que cada um tem perante a sociedade. O que me chamou a atenção, porém, foi a segunda parte do programa, que tratou dos novos recursos eletrônicos para criar vozes eletrônicas personalizadas para pessoas que não conseguem mais emitir sons compreensíveis. Ao invés de todo mundo comprar um equipamento que emite a mesma metalizada e robótica voz, já se chegou à criação de algo bem personalizado.

Essa é a parte boa. A parte ruim dessa tecnologia é que já é possível simular vozes de pessoas de maneira a tornar quase impossível saber que se trata da fala de um robô e não da pessoa que ele está imitando. Para tanto, esses programas analisam gravações da voz de determinada pessoa e, desvendando suas nuances, são capazes de proferir frases e até textos inteiros com o mesmo padrão vocal. Por que eu me assustei com isso? Acho que é óbvio, não? Como juiz, não é raro que eu profira sentenças condenatórias com base em gravações de áudio. Mesmo com perícias sobre tais gravações, em breve a tecnologia estará tão avançada que não será mais possível identificar o que é voz real e o que é simulada. Pior: tais recursos estarão na internet a preço de banana, quando não de graça, e o estrago em casamentos, relações entre sócios e em todos os cantos da vida social serão gigantescos, ainda mais em uma época na qual a verdade é aquilo em que a pessoa acredita, não aquilo que realmente aconteceu. Pior ainda: já há programas que começam a criar vídeos falsos, trocando o rosto da pessoa real por qualquer outro.

O segundo ponto sombrio dos avanços tecnológicos, que também me levou à reflexão na última semana, foi tratado no podcast da Folha de S. Paulo chamado “Café da manhã”, na edição do dia 17 de julho. Discutiu-se a decisão do Metrô de São Paulo de começar a usar o reconhecimento facial. A tecnologia para tanto já existe e até eu a tenho no meu celular. A ideia inicial para o uso dela também é bacana, indo da facilitação da identificação do dono de aparelhos telefônicos à busca por criminosos ainda soltos pelas ruas. O governo da Bahia já testou sistema semelhante e conseguiu efetuar prisões. Algumas cidades do mundo o utilizam para esse fim. A iniciativa, se levada a cabo de forma bem intencionada, é fantástica: câmeras espalhadas pelas cidades possibilitariam a prisão de foragidos a baixo custo e com muito mais agilidade do que acontece hoje.

Porém, até que ponto prevalecerão apenas as boas intenções? A China já tem mais de 200 milhões de câmeras de reconhecimento facial espalhadas. O que acontece quando um recurso assim é utilizado por um governo que não tem bases democráticas sólidas? O que pode acontecer se o uso desses sistemas não for feito de forma clara e apenas com fins realmente positivos para a sociedade? E se for feito para servir de projeto político-partidário? E as empresas, até que ponto elas não usarão o reconhecimento facial para monitorar hábitos de consumo sem que, com isso, exista qualquer oferta de serviço gratuito em troca?

Não dá para enfiar a cabeça no buraco e ignorar essas questões, muito menos dá para tentar impedir o avanço da tecnologia. Simulação de voz e imagem, bem como reconhecimento facial, tudo isso já é realidade e veio para ficar. O desafio agora passa a ser o monitoramento do uso dessas tecnologias, para que elas tragam mais o bem do que o mal.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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