21/07/2019 às 09h00min - Atualizada em 21/07/2019 às 09h00min

Carroças parte II

WILLIAN H STUTZ
Nota deste modesto missivista: Seria legal passada d’olhos na Parte I aqui no Diário de domingo passado. Segue a prosa.
 
O boato vai crescendo, a história toma rumos surreais: a Tubal Vilela afundou, resultado de falha geológica até então imperceptível.
Nosso carroceiro salta ligeiro para seu carrinho ganha-pão, estala a língua, e o cavalo, adestrado a alguns poucos comandos, retoma sua marcha tranquila. Isso na Tubal Vilela.

A puxar gigantesco cortejo ao som irritante de buzinas mal-educadas e xingamentos impublicáveis, segue seu caminho. Na primeira esquina, bem perto do fórum, não é que seu bicho me resolve dar outra descarregada? Também com tanto pizeiro a gerar stress no animal, não podia dar outra. E a ladainha começa outra vez.

Compromissos, aulas de pilates e novelas perdidas, amigos deixados sozinhos em mesa de bar, filhos na porta da escola, humores em baixa, ataques cardíacos, crises de pânico. Tinha que ser numa sexta-feira! Esconjura outro. Só sendo cremnóbata ou praticante de pacur, para vencer tamanho obstáculo urbano.

E por quê? Tudo por um monte ou dois de cocô.

Céu estrelado, tarde engolida por sombras de prédios. Aos poucos a normalidade.

Nem um vestígio do estrume ficou para contar a história. No entanto, por toda a avenida de ponta a ponta, um mar de papéis, de palitos de sorvete, sacos plásticos, de latas de refrigerante e até jornais e revistas, como se furacão ali tivesse deixado rastro. Tudo fruto da impaciente espera e da falta de educação e postura cívica de tantos diante de importante missão do carroceiro cumpridor da lei.

Proíbem-se os irracionais animais a não sujar vias públicas com material que logo se desfaz em inócuo pó verde e segue inofensivo bueiro abaixo, e humanos continuam a jogar seus restos entupidores de esgoto e redes pluviais ao léu e nem por isso incomodados são.

Já o carroceiro, nesse momento a trotar rumo à sua casa e merecido descanso, olha para um lado, olha para outro e displicentemente, sem maldade, por puro hábito e costume, joga seus embrulhos de merda na primeira sarjeta ou terreno baldio que encontra, longe de olhares

fiscalizadores da lei. Fezes embrulhadas para presente ganharão rumo de nossas galerias ou ficarão escondidas no mato a chamar moscas e baratas. Ali pode?

Somos uma cidade de origem rural, mesmo que muitos disso não gostem. Ainda podemos nos dar ao luxo de ter honestos cidadãos que da carroça tiram sustento.

Quando aqui cheguei, em época que os bichos ainda falavam como diz um compadre, as carroças se concentravam ao lado da antiga rodoviária na praça Cícero Macedo.

Não foi uma nem duas vezes que usei desse transporte como táxi para chegar até a pensão lá na Duque de Caxias na qual morava.
Vim da já naquela época aprendiz de caótica Belo Horizonte. Este bucólico meio de locomoção compôs a porção mágica de sedução por Uberlândia. Com raras exceções, reclamações estrumicas, vinham talvez apenas de algumas pudicas senhoras às portas de igrejas que viam no ato fisiológico conotações pecaminosas.

Claríssimo para qualquer um que os tempos mudaram e que as carroças carecem de alguma regulamentação, acho que já li algo a respeito em nosso código de posturas. Mas daí a obrigar carroceiro a catar excremento cavalar, me parece outra lei para jamais ser cumprida. A intenção pode até ter sido das melhores, mas não seria melhor apenas determinar horários de circulação? É esperar para ver.


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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