17/07/2019 às 07h47min - Atualizada em 17/07/2019 às 07h47min

O corpo também fala

FERNANDO CUNHA

Durante 75 anos ininterruptos o ator, diretor, roteirista, compositor, produtor e editor britânico Charles Chaplin se dedicou ao ramo do entretenimento, financiando e produzindo os seus próprios filmes. Foi um dos atores da era do cinema mudo, ganhando notoriedade principalmente pelo uso de mímicas. Mesmo com a quase total inexistência de palavras em suas obras, qualquer criança, jovem, adulto ou idoso consegue entender as suas histórias, em sua maioria muito engraçadas, bem no estilo comédia pastelão. Chaplin mostrou ao mundo o poder da expressão corporal, corroborada pela pesquisa realizada na década de 1960 por Albert Mehrabian, na Universidade da Califórnia de Los Angeles. Analisando incongruências de comunicação (que é a falta de coerência entre o que dizemos e o que fazemos com o nosso corpo enquanto falamos), Mahrabian identificou que 93% da comunicação humana é não verbal.       

Quem nunca ouviu a expressão “O Corpo Fala”? Inclusive, esse é o título do best seller de Roland Tompakov e Pierre Weil (Editora Vozes). A postura corporal, os gestos e a maneira como nos movimentamos enquanto falamos representam 55% do nosso processo de comunicação. As maneiras de identificar mentiras, inseguranças e incongruências através do corpo são infinitas. A incongruência pode se revelar no olhar, no sorriso, na maneira como cruzamos os braços, como movimentamos as pernas e outras tantas expressões que manifestamos no momento em que conversamos com os outros. Se não damos atenção a alguns detalhes importantes da expressão corporal nas interações que temos no dia a dia podemos perder a oportunidade de criar sintonia com os nossos interlocutores ou deixar de transmitir mensagens subliminares que fazem toda a diferença.

O tão famigerado tapinha nas costas, por exemplo, é um meio muito utilizado pelos políticos para promover aproximação com seus eleitores, o que é comprovadamente eficaz. Um estudo, realizado pela Universidade de Cornell, revelou que o toque pode mudar as pessoas. Os pesquisadores analisaram clientes de um comércio americano e apenas 12% dos que não foram tocados deixaram gorjetas. O número aumenta para 14%, com os que receberam tapinhas nas costas, e para 17% os que receberam toques e apertos de mãos. Segundo um estudo da Universidade de Glasgow, nosso cérebro leva 200 milésimos de segundo para adquirir a informação necessária sobre o significado de uma expressão facial. Como não queremos ser vistos tristes pelos corredores da firma, muitas vezes temos que fingir sorrisos - e isso é saber interpretar. Quem já fez teatro na escola sabe bem a importância da interpretação.

Um líder que anda cabisbaixo por seu setor de trabalho dificilmente convencerá seus liderados. Cruzar os braços durante um diálogo pode representar uma postura defensiva. Se uma pessoa não mantém contato visual enquanto a outra fala com ela, demonstra claramente que não há nenhum interesse naquela conversa. Nos tempos atuais, em que os smartphones tomam a total atenção de tantas pessoas, esse comportamento é cada vez mais frequente, não é mesmo? Todo palestrante, orador, professor, apresentador de TV, entre tantos outros profissionais que necessitam de se apresentar em público, devem ficar atentos à coerência entre o que dizem e como o corpo se expressa enquanto falam. Quando nos apresentamos em público ou estamos diante de uma câmera devemos avaliar minuciosamente quais movimentos complementarão as nossas falas, pois uma pequena incongruência pode colocar em xeque todo o conteúdo de uma apresentação ou discurso.

Se formos discursar sobre o processo de expansão da empresa, por exemplo, devemos fazer um movimento de abertura dos braços na linha da cintura. Se o assunto é contenção de gastos ou corte de pessoal, o movimento é contrário. Quando impomos as mãos com as palmas para baixo, estamos dando uma ordem. Para solicitar compreensão das pessoas, gesticulamos com as palmas das mãos para cima. Basta assistir a discursos de autoridades em eventos diversos. Uma forma de evitar incongruência é treinar o speech diante do espelho para verificar quais expressões fazemos ao proferir as palavras. Caso a gesticulação não esteja coerente, há como fazer alguns ajustes antes de subir ao palco. Tão importante quanto o conteúdo, é a forma. A maneira como nos vestimos, o nosso corte de cabelo, se possuímos tatuagens pelo corpo ou não. Tudo isso fala mais sobre a nossa personalidade do que nossas palavras.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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