09/07/2019 às 08h08min - Atualizada em 09/07/2019 às 08h08min

Peripécias de um poetinha

NANDO LOPES

Em depoimento concedido à entrevistadora Edla Van Steen, no livro Viver e Escrever (1982), Vinícius Moraes rememora que certo dia, após um show no Canecão, Rio de Janeiro, com Toquinho, Tom Jobim e Miúcha, ele não conteve a emoção em seu camarim. Uma senhora elegante chegou e disse, tentando lhe surpreender: “Quem sou eu?” Ele a fitou procurando recuperar os seus traços na memória. Tratava-se da primeira namorada de infância do poeta e ela trazia consigo os primeiros versos que ele havia redigido: “um poema manuscrito, assinado assim: Com amor, do poeta Vinicius. Fiquei de joelhos trêmulos”, contou o poeta sobre a emoção que sentiu ao reler aqueles versos.

Jornalista das horas vagas e poeta incorrigível, Vinicius de Moraes era chamado de “poetinha” por seu amigo Tom Jobim e disse, nessa mesma entrevista, que descobriu a literatura durante a infância. Contou ainda que foi nos tempos de meninice que escreveu os seus primeiros versos e os registrava em um caderno de capa preta, junto com a cópia feita de suas poesias prediletas. Entre os autores prediletos do escritor que lhe inspiraram os passos literários desde a infância estão Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu e Castro Alves.

Inspirado pelos pequenos fragmentos do cotidiano tocados pela plenitude dos seus sentimentos, Vinicius de Moraes imprimiu o seu olhar poético em tudo aquilo que fez. A canção feita em parceria com Tom Jobim e reconhecida nos versos – “Eu sei que vou te amar/ Por toda minha vida eu vou te amar/ A cada despedida eu vou te amar/ Desesperadamente/ Eu sei que vou te amar” – reflete a intensidade de um amor expressado em um clássico da música brasileira. A Romântica inveterada canção Eu sei que vou te amar (1958) já esteve na voz de vários intérpretes e foi tema de serenatas de amor feitas por inúmeros casais apaixonados. Mas foi o espetáculo teatral “Orfeu da Conceição” (1956) que celebrou, antes, a perfeita parceria entre Vinicius e Tom e neste trabalho identificamos outro sucesso musical atemporal: “Se todos fossem iguais a você”.

Falar de Vinicius de Moraes é falar de poesia. Não lhe faltaram versos. Em “Soneto de Fidelidade” escrito em Estoril, outubro de 1939, identificamos a finitude do amor pincelada nos versos: “Eu possa me dizer do amor (que tive):/ Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure”. Ainda na entrevista concedida a Edla Van Steen, o poeta emendou: “Eu troco qualquer livro do mundo para estar com uma pessoa que desperte algum sentimento nobre, amor ou amizade, sei lá. Eu sou o maior namorador do Brasil. Deus me abençoe.”.

Ainda que as canções e os sonetos tão logo animam a nossa mente quando falamos de Vinicius de Moraes, importante recordar que ele também escreveu crônicas em vários periódicos brasileiros, entre eles o jornal “Última Hora”, “A Vanguarda” e “Diário Carioca”. Sobre o exercício da crônica que transita pelos periódicos e definido pelo escritor como a arte de um prosador do cotidiano, ele escreveu “A crônica é matéria tácita de leitura, que desafoga o leitor da tensão do jornal e lhe estimula um pouco a função do sonho e uma certa disponibilidade dentro de um cotidiano quase sempre “muito lido, muito visto, muito conhecido”, como diria o poeta Rimbaud”.

E hoje, passados 29 anos da morte do poeta no dia 9 de julho de 1980, a impressão que tenho é de que Vinicius de Moraes ainda está por aqui, possivelmente pela vivacidade da sua arte e dos seus temas sempre necessários. Difícil falar das tessituras do amor e não se lembrar do poetinha. Inevitável ao nos apaixonarmos não ficarmos, como ele, com os joelhos trêmulos. Lido e ouvido por aqueles que se entregam ao amor e deixou suas palavras como vestígios a todos que ainda hão de se apaixonar.


*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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