03/07/2019 às 08h19min - Atualizada em 03/07/2019 às 08h19min

A cereja do bolo

FERNANDO CUNHA

França, junho de 2019. Oitavas de final da Copa do Mundo de futebol feminino. A equipe brasileira joga duro, mas perde por 2x1 da seleção francesa. Dias antes, numa outra partida contra a seleção da Itália, as meninas do Brasil vencem por 1x0. Indiscutível a boa campanha da equipe brasileira. Infelizmente não chegaram à final, mas como eu não entendo nada de futebol, quero focar em algo que chamou muito mais a atenção do que a bela atuação da nossa seleção: o batom de Marta. Também não entendo nada de batom. O fato é que a atacante da Seleção Brasileira de Futebol conseguiu destaque na mídia mundial mais pela cor forte de seus lábios nas partidas do campeonato do que pela sua atuação em campo. O fato também chamou a atenção da FIFA, pois descobriu-se depois que a jogadora teria sido patrocinada por uma certa marca de cosméticos para posteriormente lançar uma nova linha de batons, o que também não vem ao caso aqui.     

O que chamou a minha atenção nessa história é a maneira como a percepção humana (e da mídia em geral) está cada vez mais condicionada a enfatizar atitudes e comportamentos a habilidades e conhecimentos. Um simples batom nos lábios ofuscou a dedicação e desempenho não só de uma atleta, mas de toda uma equipe que atravessa o mundo todo representando a nossa bandeira. Prefiro acreditar que a maior artilheira da história das Copas do Mundo não tenha feito isso de propósito, mas isso também não vem ao caso, pois, além do dinheiro envolvido, o roxo e o vermelho de seus lábios se transformaram em símbolos de força e perseverança feminina diante de inúmeras dificuldades que as mulheres enfrentam, inclusive no meio esportivo. Logo após uma das partidas, Marta falou à imprensa: “Eu sempre uso (batom), mas aí eu ousei. Tem tudo a ver. A cor é sangria, tem que dar o sangue”, declarou.

Não estamos acostumados a ver jogadoras de futebol, vôlei basquete, tênis e MMA usando maquiagens e, quando Marta rompeu com esse padrão estético, muitos se impressionaram enquanto outros ficaram incomodados. A cantora Lady Gaga é um exemplo desse tipo de ousadia. Seus trajes exóticos sempre despertaram a atenção de seus fãs e também da crítica, mas é isso que a torna diferente e faz dela uma verdadeira estrela. Muito antes de Lady Gaga, a cantora Madonna já quebrava padrões e enfrentava inúmeros desafios e críticas, mas não é por acaso que até hoje é aclamada como a Rainha do Pop. A questão é que nenhuma delas deixou de expor os seus impulsos criativos e colocar a “cereja no seu bolo” por conta de possíveis desaprovações e críticas. Elas sempre quebraram paradigmas e é por isso que são o que são e estão onde estão.

No universo corporativo e no mundo dos negócios isso não é diferente. A maneira como nos apresentamos pode impressionar os nossos clientes ou a nossa audiência, mas também pode incomodar algumas pessoas e, talvez, por medo dessa espécie de resistência cultural de poucos, temos a tendência de não ousar e fazer sempre o “arroz com feijão”. Perdemos inúmeras oportunidades de sermos diferentes e, quem sabe, conseguirmos a simpatia daqueles que podem nos promover em nossa carreira profissional. Já percebeu que a maioria das apresentações de projetos em convenções empresariais são chatas e entediantes? Poucos procuram incrementar as suas apresentações e, na hora do speech, são metódicos e previsíveis. Não estou dizendo que temos que nos vestir de palhaços, fazer malabarismos ou plantar bananeira para chamar a atenção, mas temos que entender que uma apresentação memorável deve ter o propósito muito maior do que o de apenas informar.

Grandes comunicadores procuram incorporar elementos cênicos, sensoriais e auditivos em suas apresentações e é isso que as tornam muito mais interessantes e transformadoras. Mais do que simplesmente ensinar, a ideia é transformar. As pessoas dificilmente se lembram de tudo aquilo que falamos, mas nunca se esquecerão daquilo que as fizemos sentir. E não é preciso ser um palestrante ou apresentador profissional para fazer isso. Qualquer profissional, de qualquer área, pode fazer de sua pequena apresentação algo surpreendente, mesmo que esteja diante de uma, duas, cinco ou cem pessoas. Não importa o tamanho do público, desde que consiga tirar dele risadas, lágrimas, suspiros, palmas e/ou reflexões. Não devemos nos importar com críticas destrutivas, pois aqueles que nos criticam sempre fazem menos do que nós ou nunca fizeram nada. Por isso, vá lá e surpreenda em sua apresentação!


*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.   
         

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