30/06/2019 às 08h00min - Atualizada em 30/06/2019 às 08h00min

Você não é melhor só por isso

ALEXANDRE HENRY

O Bilu era um gato persa, gordo e preguiçoso, que me chegou à minha casa em 2004. Em um domingo à noite, uma década depois, ele se foi levado por um infarto fulminante. Doeu. Eu gostava daquela bola de pelo que me seguia pela casa o tempo todo. Cuidei do Bilu por mais de uma década e dei a ele carinho e amor. Sim, eu o chamava de Bebê, de Filho e outros nomes típicos de quem tem o animal de estimação como parte da família.

Durante todos aqueles anos, nunca me senti melhor do que ninguém pelo fato de eu gostar e cuidar bem de um animal. Depois que ele se foi, não tive mais gato ou cachorro em casa, não sentindo muita falta. De certa forma, sinto-me um pouco indiferente em relação aos bichos. Mentira: quanto aos cachorros, apesar de não ter nada contra, guardo um certo receio. Fui mordido por um deles quando eu tinha seis anos e tomei a famigerada vacina antirrábica por cinco dias seguidos.

Escrevo sobre o assunto porque, há um bom tempo, tenho visto uma boa quantidade de gente achando que é melhor do que os outros por amar e cuidar de animais de estimação. Sinto dizer, mas isso não é verdade. Que o diga o dono de Blondi, uma bela cadela pastor alemão. Seu dono a amava quase que acima de tudo e de todos. Cuidava dela com uma devoção incrível, permitia que ela dormisse em seu quarto e, mesmo nos piores momentos, não a abandonou. Quando a vida de Blondi foi ceifada, dizem que ele sentiu tanto que se suicidou logo em seguida. Uma linda história, talvez uma das únicas elogiáveis na vida de um certo cidadão chamado Adolf Hitler. Sim, ele mesmo, aquele que levou o mundo a um conflito que tirou a vida de dezenas de milhões de pessoas, incluindo alguns milhões de judeus em campos de concentração.

Gostar de animais de estimação não faz de você melhor ou pior do que ninguém. Claro, não vou te comparar àqueles que maltratam animais por prazer, pois esses certamente têm algum distúrbio mental para cometerem atos criminosos dessa natureza. A minha comparação é com quem é indiferente a gatinhos, cachorrinhos e todos os “inhos” que saíram dos campos e matas há alguns milhares de anos para viver ao lado dos seres humanos. Não precisaria nem citar Hitler para ratificar esse meu pensamento. Fico com o exemplo daqueles que gastam centenas de reais por mês com um cachorro, mas não dão um centavo para ajudar uma criança faminta. Sabe quanto os americanos gastaram com seus “pets” em 2018? De acordo com a American Pet Products Association (APPA), foram 72,56 bilhões de dólares, ou seja, perto de 300 bilhões de reais. Isso é quase 50% a mais do que o que o governo federal brasileiro consegue investir em saúde e educação juntas. Os próprios brasileiros gastam cerca de 20 bilhões de reais por ano com seus “pets”, quantia que seria suficiente para, investida anualmente em saneamento básico, resolver nosso problema nessa área em menos de duas décadas.

Pois é, e há também aqueles que passam horas dando banho e penteando um animal de estimação, mas não dão cinco minutos de atenção por semana para quem precisa tanto de companhia em um hospital. Às vezes, não dão esses cinco minutos de atenção nem para uma avó doente e sozinha. Aliás, tem muita gente que vai se isolando do mundo, fazendo de um animal de estimação uma muleta emocional e psicológica, desprezando os seus próprios semelhantes.

Sim, eu sei, nem todo mundo é assim. É justamente isso o que comprova a minha tese de que gostar muito de um animal de estimação não diz praticamente nada sobre o caráter de uma pessoa. Tem gente muito boa que vive para cuidar de cães abandonados, tem gente muito má que é capaz desses mesmos gestos. Tem gente que não dá a mínima bola para um gatinho, mas que entrega a vida à caridade para com o seu semelhante. E tem gente que, além de não dar a mínima bola para um gatinho, também não dá a menor atenção para aqueles da sua própria espécie, espalhando apenas maldade por onde passa.

Se você acha que estou criticando quem gosta muito de animais de estimação e investe mais neles do que em seus semelhantes, você está enganado. Claro, é estranho gastar uma fortuna com um cachorrinho e não ajudar uma creche, mas isso é uma escolha de cada um e, sinceramente, se isso faz com que a pessoa seja mais feliz, tudo bem. O mundo precisa de gente feliz. A minha crítica é uma só e finalizo este texto repetindo: gostar de animais de estimação não diz que uma pessoa é melhor ou pior do que as outras. Diz apenas que ela gosta de animais de estimação, só isso.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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