27/06/2019 às 14h28min - Atualizada em 27/06/2019 às 14h28min

A história tem fome

IVONE GOMES DE ASSIS
Revisito leituras. Essa prática traz-me novos conhecimentos. Nesta semana foi a vez de reler “O mundo maravilhoso de Alice...”, do diretor de jornalismo e autor Rogério Silva. Ele que é jornalista há três décadas, com título de pós-doutorado em gentileza, conhecimento e bom-senso, escolheu as crônicas como gênero para identificar sua escrita. São 224 páginas de puro saber.

Logo no início, o prefaciador Antônio Lopes (2017, p. 9) explica ao leitor: “A crônica literária se identifica por esse indisfarçável ar de ‘aqui e agora’, que lhe confere atualidade: o fato há tempos ocorrido conserva-se numa roupagem que o faz parecer banhado em juventude, vestido de novo”. Ciente disso, já temos ideia do que encontraremos no livro: a escrita “canônica”, aquela que sobreviverá ao tempo e construirá a história.

Então, o próprio Rogério Silva (2017, p. 15) se explica: “A contribuição de um jornalista à literatura só pode ocorrer, penso, se houver encaixe contextual do momento em que se constrói um texto. A relação dos pensamentos do autor com o instante vivido e o porquê dessa reflexão. Ferreira Gullar (1930-2016), objeto de um dos meus artigos, dizia que ‘...tem de haver espanto, não se faz poesia a frio’. E no jornalismo brasileiro, nós nos espantamos dia sim, outro também. São espasmos, reflexos de absurdos, que primeiro temos que digerir para, em seguida, interpretar e narrar”.

Escolhi, para a reflexão de hoje, a crônica “O engenheiro de histórias”, que, inicialmente foi publicada em um Jornal de grande circulação e depois veio ocupar as páginas 43 a 45 desta obra. Nela, Rogério Silva escreve sobre dois grandes nomes da notícia em Uberlândia, os ilustres Celso Machado e Magoo. Mas, antes, abre sua crônica com a citação do poeta baiano José Delmo. É como se víssemos José Delmo balançando seu chapéu, de pernas cruzadas, batendo o pé e dizendo: “Se não vigiarmos a vida, eles escreverão a história. E o futuro poderá neles acreditar. Ainda bem que existe o artista, que canta o povo: suas dores e suas alegrias, seus temores e sua fé”. E aí Rogério Silva completa: “Eu sou grapiúna, José Delmo é macuco”. Vai entender o regionalismo de baiano? Para mim, isso é história.

Então, voltando ao Celso Machado, o cronista Silva (2017, p. 43) escreve: “O Celso, artista que é, toma para si a responsabilidade de zelar pelos fatos perdidos de Uberlândia. Junta cacos, remenda fotografias velhas, vai à busca dos que sabem para ouvir deles a verdade, sem desvarios e exageros”.

E para arrancar o leitor da zona de conforto, Silva menciona: “Na maioria das vezes, a realidade é chata, os fatos não nos chamam tanto à atenção, por isso ganham contornos criativos”. (2017, p. 43). Isso pode vir “maquiado” de piada, causo, literatura, filme, ficção... O fato é que, vira-e-mexe, algum desavisado faz a “notícia correr”, embasado no que ouve nas rádios poeirinhas, ignorando a pesquisa, o aprofundamento, a “engenharia das conversas”.

Por outro lado, alguns analistas escavam a história e mesmo assim abrem mão de seus títulos, alegando-se meros curiosos: “Celso assina o editorial como ‘engenheiro de histórias’. Não é historiador, não é pesquisador, nem mesmo invoca sua insígnia de jornalista. Gosta de se dizer um curioso, fuçador de prateleiras velhas e empoeiradas. Tem ali riqueza que poucos enxergam” (SILVA, 2017, p. 44).

Da lista do “cavucador chefe”, Rogério Silva, brotam nomes de conhecedores como Neivaldo Silva, o Magoo. Dentre muitos saberes, ele traz a história de Uberlândia e suas ruas... aos “agregados”, como eu. Sou uma privilegiada em aprender com essa gente.

Faço uso da escrita de Rogério Silva, o “pai de Alice”, para parabenizá-lo por esta importante obra, com a qual presenteia o leitor, “O mundo maravilhoso de Alice e outras histórias”: “Um salve aos artistas, intelectuais, os interessados pela verdade. É dos senhores a tinta da caneta. As páginas da história aguardam por ser preenchidas. (SILVA, 2017. p. 45). A história tem fome.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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