19/06/2019 às 09h56min - Atualizada em 19/06/2019 às 09h56min

A regra de três

FERNANDO CUNHA
Durante a 9ª rodada da primeira fase do campeonato goiano de futebol de campo, em março de 2015, o atacante goiano Wendell Lira, defendendo a equipe do Goianésia contra o Atlético (GO), realizou um dos maiores feitos da vida dele. Numa jogada inusitada, tabelou com Da Matta, que lançou uma bola por cobertura, deixando os zagueiros vendidos. Lira ultrapassava a linha da bola quando deu uma meia virada e marcou um dos gols mais fantásticos da história. O feito lhe rendeu o Prêmio Puskás de gol mais bonito do ano, superando, inclusive, o argentino Messi e o italiano Florenzi. Na solenidade de premiação, ocorrida em Zurique (Suíça), após o anuncio de seu nome como campeão, Wendell parecia não ter acreditado, mas rapidamente a “ficha caiu” e então ele subiu ao palco para receber o troféu e proferir o seu discurso.

Novamente, o atacante acertou em cheio. Ao discursar para um enorme público com milhares de pessoas e diante das câmeras que transmitiam o evento para o mundo todo, Wendell Lira agradeceu à família, mandou um recado para os brasileiros e encerrou o seu discurso emocionado contando uma breve história dos personagens bíblicos Davi e Golias. Simples assim! Seu discurso durou menos de um minuto. Assistindo ao vídeo, percebe-se que ele estava um pouco nervoso, afinal o jogador não é uma pessoa acostumada com discursos, principalmente num evento de nível mundial. Se ele tentasse prolongar a fala talvez teria se atrapalhado todo, mas, sabendo que firula não altera o placar, preferiu usar uma estratégia que grandes mestres do discurso improvisado usam: a regra de três.

Não me refiro ao cálculo matemático. Trata-se de uma regra básica de apresentação em público muito usada também pelo fundador da Apple, Steve Jobs, evidenciada no livro de Carmine Gallo - Faça como Steve Jobs e realize apresentações incríveis em qualquer situação (Editora Leya). É cientificamente comprovado que o número três é didaticamente mais eficaz. Uma pesquisa feita pelos fuzileiros navais dos Estados Unidos concluiu que três é mais eficaz que dois ou quatro. Um cabo comanda uma equipe de três soldados. Um sargento comanda três batalhões. Um capitão comanda três pelotões. Se eles fizeram a gentileza de estudar isso e chegaram a essa conclusão, porque vamos reinventar a roda?

Essa estratégia é utilizada em vários campos do conhecimento. Já percebeu que a maioria dos grandes livros, filmes e séries são trilogias? Que as melhores peças de teatro possuem estrutura em três atos? Por que são três mosqueteiros, e não quatro nem dois? Temos também os três porquinhos. Já viu que uma boa história tem começo, meio e fim e que toda boa redação tem introdução, desenvolvimento e conclusão? Se definirmos a regra de três também para nossas apresentações, a chance de dar certo é muito maior. Agora, imagine você na conferência da sua empresa ou instituição e alguém lhe diz: “queremos que você faça o discurso”. Logicamente que você tem o direito de solicitar alguns minutos para preparar a sua fala, principalmente se você for pego de surpresa. Então, use a regra de três!

Na prática, a sua mensagem pode ter a seguinte estrutura: 1 - Elogie o organizador do evento e agradeça o convite para discursar; 2 - Eleja três tópicos para o tema (caso seja um evento de fim de ano, por exemplo, fale: A - sobre o orgulho de ter pertencido àquela equipe no ano que se passou; B) sobre a felicidade de hoje estar celebrando com todos nesta data; C) sobre como as experiências passadas podem servir de lição para os desafios que virão no próximo ano); e 3) elogie novamente o organizador do evento e agradeça pela oportunidade de falar em nome de todos. É como um sanduíche. O pão de cima é a introdução, o recheio é o desenvolvimento (também em 3 partes) e o pão de baixo é a conclusão.

Para muitos, fazer um discurso improvisado é extremamente difícil, mas com uso desta e algumas outras técnicas fica bem mais confortável. O primeiro passo é acreditar que, se lhe convidaram é por que você é uma pessoa importante para a equipe. Já é um bom motivo para ganhar ainda mais confiança. Em segundo lugar, imagine rapidamente o seu discurso com introdução, desenvolvimento e conclusão (regra de três). E o terceiro e último ponto é você acreditar que vai dar certo e encarar o desafio. Faça como Davi, que, quando viu Golias, não disse: “ele é muito grande e eu não vou conseguir”. Na verdade, diferentemente de todos ali, ele deve ter dito: “ele é muito grande e não tem como errar”.
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