16/06/2019 às 08h30min - Atualizada em 16/06/2019 às 08h30min

O novo e o velho

ALEXANDRE HENRY

Henrich Runder atuava como fuzileiro da 709ª Divisão de Infantaria Estática alemã na Normandia quando aconteceu o famoso “Dia D” da 2ª Guerra Mundial. Creio que você já deva ter lido sobre esse evento, que foi recontado até em filmes famosos, como o “Resgate do Soldado Ryan”. Henrich Runder estava lá naquele 6 de junho de 1944 e contou parte de sua história em um livro de entrevistas interessantíssimo, chamado “D Day: Through German Eyes – Book Two”, de autoria de Holger Eckhertz. Digo interessantíssimo porque quase tudo o que você já deve ter visto sobre a 2ª Guerra Mundial foi contado a partir da perspectiva dos vitoriosos. Esse livro, porém, traz narrativas impressionantes feitas por militares alemães que estavam na Normandia quando as tropas aliadas fizeram o gigantesco desembarque na França. Recomendo a leitura.

Em certo momento da entrevista, Runder conta de sua experiência no campo de prisioneiros em que ficou, dizendo que, primeiro, esteve sob os cuidados dos americanos e, depois, sob o cuidado dos ingleses. Questionado sobre a diferença entre os dois povos, o fuzileiro alemão se lembrou de algo bem pitoresco: “Os ingleses eram bastante similares a nós, alemães, porque eles gostavam de consertar coisas. Se uma máquina parava de funcionar, um inglês tinha prazer em consertá-la. (...) Mas os americanos queriam tudo rapidamente, não importava o custo. Se um gerador de energia falhasse, era ‘Consiga-me um novo gerador, droga’, e aquilo tinha que ser feito rapidamente”.

Essa parte do livro me fez recordar de algo que não tem nada a ver com a 2ª Guerra Mundial e que acabou me motivando a escrever este texto, o qual, apesar dos dois parágrafos acima, também não tem relação com conflitos armados. Lembrei-me do ano de 2006, quando decidi que voltaria a estudar para concursos, e da resolução que tomei logo que me pus a estruturar a rotina de estudos: enquanto eu não desse conta dos livros antigos na minha estante, eu não iria comprar mais nenhuma obra. Pensei: “se eu não for capaz de ler nem mesmo os livros que já tenho, é porque essa história de estudar não vai dar certo”. No final das contas, consegui dar cabo às obras na estante, depois adquiri outras e tudo deu certo.

Às vezes, eu me lembro dessa passagem na minha vida quando olho para alguma coisa que tenho e me vem aquela vontade de trocá-la. Isso acontece com muita frequência, principalmente quando ando pelo shopping ou quando me chegam promoções das mais variadas lojas pela internet. É um celular novo, um tênis para corrida, algum eletrônico para a minha coleção de bobagens cibernéticas, enfim, sempre tem uma tentação pela frente. Na maioria das vezes, consigo resistir, mas há algumas em que, mesmo já tendo algo parecido e que ainda me serve bem, acabo comprando um novo exemplar. Nessas horas, eu sou o americano descrito pelo fuzileiro alemão.

O problema é que a vida acaba tendo menos graça se a gente adquire o hábito de sempre querer algo novo quando o que já se tem parece um pouco velhinho. Eu tenho certeza absoluta que você também já passou por isso. De repente, quase tudo na sua vida passa a depender do que você ainda não tem: o filme só vai ser bom se você assistir em uma TV nova ao invés de vê-lo naquela que você comprou no ano passado, a internet só vai ficar legal no celular que você ainda não tem, a corrida só vai ser boa no dia em que você tiver aquele modelo novo de tênis. Esse é um comportamento perigoso e estimulado constantemente pelos “lançamentos”, pelas novas coleções e suas propagandas onipresentes. Mais um pouquinho e você começa a não achar graça na pessoa ao seu lado: como um livro velho na estante, ela parece não ter mais nenhum atrativo e isso começa a gerar dentro de você a sementinha da ideia de trocar também de companhia. Claro, a sua TV ainda funciona perfeitamente, o celular acessa a internet do mesmo jeito que o novo, o tênis que você tem é até mais macio do que aquele na loja e, sim, a pessoa do seu lado é como um livro na estante, mas um livro que você não leu por completo, um livro que seus olhos percorreram apenas as primeiras páginas.

Minha luta constante é para ser o britânico da narrativa de Runder, não o americano. Sei perfeitamente que um dos caminhos mais seguros para a infelicidade é não dar valor ao que se tem, é condicionar seus dias felizes à chegada de algo novo. Quanto mais você conseguir abandonar esse comportamento, menos ansioso e mais completo você vai se sentir.



*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.



 

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