11/06/2019 às 08h19min - Atualizada em 11/06/2019 às 08h19min

Namorar em tempos de redes sociais

NANDO LOPES
De uns tempos para cá namorar virou sinônimo de mudar o status nas redes sociais. Publicar fotos abraçados e fazer aquela live de declaração apaixonada com direito a likes, comentários e shippar o casal de pombinhos. São “tempos para lá de modernos” ou, talvez, independentemente do tempo, são estes casais adeptos à lei de que “qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor valerá”, como canta Milton Nascimento. Já eu felicito mais as declarações de amor explícitas nas redes sociais do que as brigas de galo que tenho visto diariamente. Em algum lugar, o amor resiste em meio a tantas desavenças e egos inflados de razão.
 
Mas tenho que alertar: houve a época em que o amor era avesso à publicidade. Lembro-me dos tempos que adolesci tão distante do ciberespaço e o medo do “amor não correspondido” tinha o alarde de um tormento. Eram tempos dos diários e do amor cochichado em mensagens cifradas, das músicas pedidas e oferecidas com um recadinho anônimo nas emissoras de rádio e que íamos ao cinema assistir um filme para no escurinho poder namorar. Isso quando não tinha de levar o irmão mais novo a tiracolo e víamos o nosso plano de namoro ir por água abaixo.
 
Aqueles que chegavam a namorar no cinema podiam se vangloriar do amor correspondido. Nos tempos da escola olhávamos o “primeiro amor” de rabo de olho, emprestávamos o caderno ao final da aula, oferecíamos uma balinha nos intervalos, fazíamos de tudo para chamar atenção da paquera. Não havia mensagens no celular, emoji ou a tecnologia para ajudar. Correio elegante só em tempo de festas juninas e olhe lá. Com sorte, acompanhávamos o pretendente até a porta de casa, depois da aula, com medo de conhecer os seus pais. Guardávamos o amor a sete chaves. E quando o namoro era descoberto pelo par que jurava sermos apenas amigos: pronto. Acabava-se o amor tão prematuro como o sinal sonoro indicando que havia esgotado o recreio. Quão cheio de vida era o amor idealizado e poucas vezes correspondido.
 
Na adolescência apaixona-se com facilidade e é natural deixar de se interessar por alguém com a mesma rapidez que sonhamos ser médico, depois mudamos e desejamos ser advogado, arquiteto, etc. Nada é mais previsível do que mudar de ideia quando ainda acumulamos nossas primeiras experiências e tudo parece estar por um fio. Entretanto conheço casais que contrariam a imprevisibilidade das escolhas flutuantes na juventude. Viajantes do tempo, eles têm na gaveta de suas casas álbuns com fotografias do tempo em que se conheceram, estampam nos porta-retratos imagens que, vistas hoje, custamos a reconhecê-los. Acumulam bodas como títulos de torneio. E tem também aqueles pombinhos que independentemente do tempo juntos, não deixam de namorar e fazer declarações açucaradas a quem possa ouvi-los.
 
Agora, esses casais notoriamente para lá de modernos também exibem o amor explícito nas redes sociais em plena luz das telas de LED, embora a demonstração de afeto em público não seja uma invenção contemporânea. Casais que desde os tempos dos daguerreotipo não cansam de se fotografar, que irritavam vizinhos com as serenatas, agora não cansam de viver abraçados nas redes sociais. Ouvi dizer que estes casais agora estão em perigo sob os olhos atentos dos internautas que, não tendo um amor, apenas colecionam encontros não correspondidos ou mágoas por um amor indiferente. Mas não se preocupem, os casais apaixonados têm um bom antídoto para olho gordo, mau humor ou coisa do tipo. Dispensam alecrim e amarrações para o amor. Para preservar o afeto, eles permanecem a namorar como adolescentes e mantém o frescor do primeiro amor nos seus primeiros dias. E descaradamente enamorados estão felizes.



*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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