09/06/2019 às 12h00min - Atualizada em 09/06/2019 às 12h00min

O câncer de pulmão em pessoas que nunca fumaram

ANGELA SENA PRIULI
(Divulgação)
 A Advocacia Geral da União do Brasil pediu à Justiça Federal, recentemente, que condene as fabricantes de cigarros a ressarcirem os gastos da rede pública de saúde com tratamentos de doenças causadas pelo tabaco nos últimos cinco anos. Hoje, no entanto, ao invés de alimentar mais um pouco essa polêmica sobre o câncer causado pelo vício nos cigarros, gostaria de chamar atenção para o outro lado da moeda. Sabe aquela desculpa de fumante: "ah, fulano fumou a vida inteira e está com 95 anos com o pulmão ótimo!"? Então, o contrário também pode ser real.

O câncer de pulmão causado em não fumantes (aqueles que fumaram menos que 100 em toda a vida) é mais comum do que a maioria das pessoas pensa e está crescendo em número de casos. O aumento da conscientização poderia ajudar a levar ao diagnóstico precoce, reduzir a cultura da culpa de "fumar" em torno do câncer de pulmão e até mesmo reequilibrar o interesse da pesquisa por este tipo de câncer não ligado a um vício.

Em um artigo publicado no Journal of Royal Society of Medicine, um grupo de pesquisadores diz que o câncer de pulmão em pessoas que nunca fumaram é pouco reconhecido e isso representa um desafio para o diagnóstico e prognóstico desses pacientes. Para termos uma ideia do impacto real, estima-se que cerca de 6.000 pessoas no Reino Unido que nunca fumaram morrem de câncer de pulmão a cada ano, maior do que o número de pessoas que morrem de câncer cervical (900), linfoma (5.200), leucemia (4.500) e câncer de ovário (4.200 ). Aqui no Brasil, o câncer de pulmão é o mais comum de todos os tumores malignos e é altamente letal. Para 2018, a estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca) foi de 31.270 novos casos (em fumantes ou não) no Brasil.

Os principais contribuintes para câncer de pulmão em pessoas que nunca fumaram incluem o fumo passivo, a exposição ocupacional a carcinógenos e a poluição externa. Globalmente, a exposição a agentes carcinogênicos como a fumaça causada pela queima do diesel e mutações genéticas espontâneas também são responsáveis por provocar câncer de pulmão em pacientes que nunca tragaram um cigarro. Entretanto, os especialistas vêm chamando atenção para a exposição ao gás radônio, que já é, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a segunda maior causa de desenvolvimento de câncer de pulmão, atrás somente do cigarro. Esse gás radioativo é liberado naturalmente pelo solo, permanecendo na atmosfera em quantidades inofensivas. Contudo, em regiões ricas em urânio, o volume de radônio é suficiente para entrar nas construções por meio de tubulações, fendas e rachaduras, acumulando-se ao longo dos anos e atingindo concentrações que podem ser danosas à saúde. Nesses casos, a recomendação dos médicos é que a população mantenha as janelas de casa abertas e faça a medição periódica da dosagem do gás em seu terreno. No Brasil, cidades como Poços de Caldas (MG) e Caetité (BA) apresentam taxas de câncer de pulmão mais elevadas do que a média por conta da exposição ao gás.
 
DIFERENÇAS ENTRE TUMORES
 
Embora sejam tratados de forma similar, o câncer de pulmão em não fumantes é diferente do tipo que acomete os fumantes. Enquanto o primeiro é em sua grande maioria do tipo adenocarcinoma, o segundo é do tipo carcinoma de células escamóides. Nesse último caso, o tumor se desenvolve diretamente nas vias aéreas, resultando em sintomas imediatos: tosse ou tosse com sangue.

Já o adenocarcinoma, mais frequente nos não fumantes, cresce nas áreas exteriores do pulmão e não manifesta sintomas até que tenha se desenvolvido mais, o que representa uma desvantagem para esse grupo, que acaba demorando para buscar uma avaliação médica. Por outro lado, há estudos que indicam que os indivíduos que não possuem o hábito do tabagismo respondem melhor ao tratamento quimioterápico e apresentam maior taxa de cura em relação aos fumantes. De qualquer forma, é importante realizar regularmente check ups que verifiquem como estão os pulmões, especialmente acima dos 50 anos de idade.

Esse é um tema pouco falado, então cabe a você leitor que chegou até aqui comentar com seus amigos e familiares para que aumentemos a conscientização e a equivocada ligação obrigatória entre câncer de pulmão e cigarro, ok?
 

Fontes:
Anand Bhopal, Michael D Peake, David Gilligan, Paul Cosford. Lung cancer in never-smokers: a hidden disease. Journal of the Royal Society of Medicine, 2019.
https://www.vencerocancer.org.br/noticias-pulmao/aumento-da-incidencia-de-cancer-de-pulmao-em-nao-fumantes-preocupa-especialistas/
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