30/05/2019 às 14h35min - Atualizada em 30/05/2019 às 14h35min

Uma viagem ao mundo do teatro com “O Barqueiro”

JARBAS SIQUEIRA RAMOS
O Barqueiro foi o segundo espetáculo apresentado no Circuito Independente do Teatro de Uberlândia (Citu). O espetáculo, desenvolvido como projeto de iniciação científica junto ao Curso de Teatro da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), tem encenação, atuação e dramaturgia assinadas pelo artista Mário Cortês, que, numa relação íntima com o trabalho do artista carioca Julio Adrião, buscou a narrativa física como ponto de partida dos estudos para a elaboração desse trabalho.

A dramaturgia retrata a história de um filho à procura de seu pai, um marinheiro que saiu em busca de uma ilha desconhecida e nunca mais voltou. O filho, à beira do cais do porto, encontra uma garrafa com bilhete, dessas que povoam as nossas memórias quando falamos de histórias de piratas, cujo teor não é revelado ao público, mas que traz ao personagem ânimo e esperança. A parir de então, alimentado pela esperança de um dia reencontrar o seu pai, a personagem se lança na busca por um barco que o permitirá realizar a mesma travessia do velho marinheiro.

Nessa incessante busca pela embarcação, a história começa a ser permeada pelas memórias dos ensinamentos do pai que, narradas como ensinamentos de um mestre ao aprendiz, se interconecta com acontecimentos que trazem ao imaginário um jogo que coloca artista e plateia num limbo entre a realidade, o surrealismo e o realismo mágico. É no final da peça que o público começa a perceber uma relação com o começo, seja pela semelhança dos acontecimentos ou mesmo pelo retorno da garrafa. Nesse instante, a dramaturgia traz à tona toda a dimensão de realismo mágico que a atravessa. É como se toda a história se desenrolasse no fragmento de tempo entre a resposta para uma pergunta, sendo o que o sim e o não podem gerar inúmeras possibilidades para a sequência da vida. É como o sonho, que permite que vários acontecimentos se façam presentes e que vivamos coisas que parecem surreais. É como o teatro, que tem a capacidade de deslocar o tempo e o espaço na produção das mais surpreendentes sensações e histórias.

É preciso destacar que todo o trabalho de encenação é baseado no treinamento físico do ator e que nos surpreende pela dinâmica proposta em cena ao intercalar sons, gestos e ações com a própria dramaturgia. Apesar de mencionar a relação com as técnicas propostas por Dario Fo, me parece muito mais o trabalho de Teatro Físico, associado à Mímica Dramática, como propostos por Jacques Leqoc e Etiene Decroux, respectivamente. No Teatro Físico e na Mímica Dramática, ainda que sejam utilizados textos, lineares ou não, o foco principal do trabalho é a atuação física e gestual dos artistas, a implicação de seus corpos e seus movimentos no espaço da cena. Para mim, O Barqueiro é um espetáculo cujas gestualidades e ações produzidas em cena tornam-se elementos principais para o desenvolvimento do espetáculo e, por vezes, chega a substituir a própria dramaturgia textual, o cenário e elementos cênicos. É por esse motivo que a simplicidade dos elementos técnicos de cenário, iluminação e figurino ficam em segundo plano e dão ao ator o lugar central da cena.

Em se falando da técnica do espetáculo, é preciso destacar a luz branca na plateia que, na medida certa, coloca o público em jogo direto com o ator, estabelecendo um diálogo que faz com que os espectadores sejam parte integrante do trabalho. O figurino, uma camisa branca e uma calça marrom, poderiam ser melhores trabalhados propiciando ao público outro elemento para interação com o espetáculo.

A encenação poderia cuidar um pouco mais da narrativa e abusar menos do cômico, que muitas vezes parece ser uma muleta para o ator na tentativa de trazer o público para compartilhar consigo os momentos do espetáculo. O mesmo poderia ser alcançado com um aprofundamento na densidade dramática de falas e ações, como o que é possível de ser observado no início do espetáculo quando a personagem encontra a garrafa.

A viagem entre a realidade e imaginário, entre o absurdo e o mágico, entre o sonho e o teatro é o que O Barqueiro propicia aos espectadores. Que a esperança d’O Barqueiro alimente ainda mais a nossa esperança de vida longa ao Citu.
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