26/05/2019 às 10h30min - Atualizada em 26/05/2019 às 10h30min

Pontos cardeais

WILLIAN H STUTZ
“Imagino que a maioria dos humanos age mesmo é como aves migratórias, indo de um ponto ao outro, pouco ligando para a rosa-dos-ventos. O importante mesmo é chegar, não perder o rumo. Nunca perder o norte da vida, mesmo que se marche para o sul”
 
Sempre muito me chamou atenção, principalmente em filmes, a facilidade com que os americanos, em particular os policiais, se referem aos pontos cardeais. Se alguém pede uma informação, logo vem algo do tipo: você segue a oeste cinco ruas, depois vira para leste na rodovia principal, anda mais algumas milhas – só eles usam as excludentes milhas –, depois retorna noroeste mais algumas quadras.

Dúvidas pairam se tudo isso é real ou mais um engodo hollywoodiano.

Mesmo tendo morado muito tempo nos Estados Unidos, no gelado estado de Michigan, e carregando o fardo de uma dupla cidadania, puxo da memória e não me lembro desses termos sendo usados rotineiramente.

Tá certo, a maioria das ruas de lá trazem em seus nomes a direção geográfica da via de acesso, coisas do tipo East Jefferson Ave, ou W Davidson St. Mas logicamente não são todas. Penso cá com meus botões, será que os irmãos e primos do norte já nascem com bússola na cabeça? Sabem mesmo onde fica o norte, o sul, o leste e o oeste? Será mesmo que aqueles que se orgulham de terem sido escoteiros ou Boy Scouts of America (BSA) dominam com total desenvoltura as direções? Eu mesmo só cheguei a Cub Scout ou Lobinho e nem ao tradicional canivete suíço Victor Inox tive direito.

Bom, no cinema pode-se garantir que sim. Basta o mocinho e a mocinha se perderem em densa, escura e labiríntica mata de pinheiros para que, num só lamber e erguer de dedo ao vento, venha a famosa frase: - vamos, o leste é para lá. Não dá outra, passam algumas suadas horas cheias de tropeços e quedas - da mocinha - de olhares de desaprovação - do mocinho - de uma ou outra carreira de urso pardo que em pé ataca gritando escandalosamente, sem contar o ataque de praxe de lobos bravios que são normalmente enxotados pelo valente mocinho com um singelo pedacinho de pau. Acabou não: chega a hora das inevitáveis e carimbadas corredeiras de rios bravios, onde sempre aparece um providencial tronco caído para servir de ponte. Chegando-se enfim a conhecido velho posto de gasolina, habitualmente deserto e no qual, claro, ou o telefone não funciona, seja por falta de moedas ou porque a telefonista - claro - se recusa a fazer ligação a cobrar. Bom, aí já é outra história e continuação de filme. Mas finalmente acham o tal leste. Ufa!

Parece mesmo é que por lá essa de citar pontos cardeais é uma coisa tão mecânica quanto para nós aqui é um “Sobe a Rondon até a Rio Grande do Sul e vira à esquerda!”.

Mesmo em Brasília, você acretida mesmo que candangos de outrora e brasilienses atuais, que com uma facilidade gringa nos mandam de uma Asa Sul a uma W3 Norte, sabem em que ponto nasce e se põe o sol? Sabem pelo menos separar o oriente do ocidente, assim na lata?

Tenho comigo que, a maioria de nós aqui, consegue no máximo identificar no mapa do Brasil o norte e o sul e quase sempre com base em times de futebol ou em catástrofes climáticas. Até com as estações do ano fazemos confusões. Não raro ouço que inverno é tempo de chuva e isso sustentado pelo termo “invernada” que, segundo o Aurélio, não está totalmente errado, ainda que, do lado de cá do planeta, o inverno seja mesmo tempo de estiagem braba.

Imagino que a maioria dos humanos age mesmo é como aves migratórias,indo de um ponto ao outro, pouco ligando para a rosa-dos-ventos. O importante mesmo é chegar, não perder o rumo. Nunca perder o norte da vida, mesmo que se marche para o sul.

*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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