21/05/2019 às 08h34min - Atualizada em 21/05/2019 às 08h34min

Morum

ANTÔNIO PEREIRA -
Morum Bernardino saiu de Rachine, no Líbano, com a esposa, d. Maria, e os filhos Fádua e Bachir, quase sem recursos. Veio direto para Uberabinha onde já estava sua irmã Mariana, casada com o Calixto Felipe Milken. Era 1920. Não falava uma palavra de português. Conseguiu 300 mil réis emprestados com o cunhado que só davam para comprar uma carroça e um burro. Uberabinha, nesse tempo, não tinha quase ninguém.

Como pegar carreto se não falava a língua do lugar? Resolveu buscar lenha no cerrado. Ia lá perto do Balanço, uma região no caminho da Martinésia, no cruzamento com a linha da Mogiana. Enchia a carroça e trazia pra cidade. Vendia a 500 réis a carroçada. Contava o saudoso Morum pra filharada: às vezes fazia mais força que o burro, porque a carroça atolava no barro ou na areia e o bicho sozinho não dava conta de sair. Tinha 23 anos, estava na flor da idade. Com três anos puxando lenha, conseguiu alguma economia, pagou o Calixto e abriu uma portinha lá na rua da Chapada (av. Rio Branco), ao lado de sua casa. Ali ele fazia calçados e consertava. Era a sua especialidade. Lá no Líbano, ele fora um artista de mão cheia no trato do couro. Lá da Chapada, veio para a Cesário Alvim, esquina com a Machado de Assis, sempre trabalhando com couro. Em 1927, comprou do Pedro Samora, que era o concessionário do serviço funerário da cidade, uma área na Floriano Peixoto, onde está hoje o Floriano Center. Construiu no terreno, uma casa provisória com um barracão na frente e, aí, pôs a sua oficina. Já não era apenas um conserto de sapatos, fabricava botinas, calçados, artigos de selaria. O negócio dele era o couro.

Nessas alturas da vida, com oito filhos, Fádua, Bachir, Maria, Zaruf, Georgina, Geni, João e Rolanda, perdeu a esposa durante uma cirurgia, em São Paulo. Casou-se segunda vez, com d. Jamila, moradora da Palestina. Palestina era uma parada da Mogiana, com alguns moradores. Foi aquele festão, como são todos os casamentos árabes, muita comida, muita música. Morum alugou um vagão da Mogiana e levou seus amigos patrícios todos para lá.

Por essa época, 1934, ampliou sua casa na Floriano puxando-a para a frente da rua. Foi tocando sua atividade a ponto de já ser uma referência no trabalho com couro em 1936. Foi até premiado, com Medalha de Ouro, na primeira exposição da Associação Comercial e Industrial e Agro Pecuária de Uberlândia, montada na avenida Floriano Peixoto perto da Santa Casa.

Com o sucesso dos seus negócios ampliou sua atividade montando uma olaria no vau do Uberabinha, no começo da avenida Marcos de Freitas Costa. No ramo de couro chegou a ter até 45 empregados, lá pelos meados da década de 1940. Tinha uma fábrica nos fundos e o varejo na frente ao lado da residência.

Com as novidades trabalhistas e tributárias, Morum sentiu que ficaria difícil continuar com a fábrica. Como mantinha bom relacionamento com os empregados, conversou com eles, explicou que deixaria a parte industrial e todos concordaram em sair da empresa e procurar outro trabalho com ajuda do próprio Morum para encaminhá-los. Havia na cidade mais três indústrias de couro: a do Clarimundo Carneiro, a do Mário Ribeiro e a do Manuel dos Santos, pai do Ministro Homer Santos. Não foi difícil colocá-los. Morum ficou só com o comércio: calçados e artigos de selaria que vinham de São Paulo , do Rio Grande do Sul e daqui também. Como a área era muito grande, introduziu entre os produtos de couro, secos e molhados. Não ficou uma boa estética, mas ele não estava ligando muito pra isso não.

Morum teve mais sete filhos, com d. Jamila: Bernardina, Bádue, Nazira, Nelson e Roberto. Magid e Gilberto morreram em tenra idade. O tempo passou, tinha conseguido formar uma bela família e vivia com tranquilidade, devendo tudo ao trabalho e a disposição de vencer. No fim do ano de 1961, padecendo de grave enfermidade, veio a falecer. Deixou viúva, d. Jamila, mais os filhos Fádua, Bachir, Maria, Zaruf, Georgina, Geni, João,  Rolanda, Bernardina, Bádue, Nazira, Nelson e Roberto e muitos netos.
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