14/05/2019 às 08h53min - Atualizada em 14/05/2019 às 08h53min

A gente se diverte

NANDO LOPES
A prosa é de longa data. Temos o hábito de compartilhar as bobices do cotidiano. Começamos com tímidos boas-tardes no intervalo do trabalho, escorados na mesinha do café. Entre um gole e outro, intercalamos comentários vagos sobre as oscilações climáticas, o desenfrear do calendário e o sono que sempre nos assaltava após o almoço. Jogávamos conversa fiada fora enquanto acomodávamos uma amizade para dentro, durante anos de trabalho em comum.
 
Com o passar dos anos, o repertório foi esticando. Conhecíamos a vida dos amigos e parentes um do outro, de cor e salteado, sem nunca tê-los visto pessoalmente. Éramos bons contadores de “causos”, dizíamos. As dores do dia a dia eram risíveis e, talvez, até irrisórias em meio às ironias que fazíamos de nós. São poucas as pessoas com quem temos notável intimidade para compartilhar nossos melhores e piores dias. Éramos assim.
 
Até que um dia, após o expediente, ela me abraçou e disse: “a gente se diverte”. E como nós nos divertimos. Não que não soubéssemos disso. Como bons cúmplices, já conhecíamos nossos silêncios e peraltices capazes de render boas gargalhadas. Estranho é que nunca precisamos declarar coisa alguma, se não fosse aquele abraço efusivo o anúncio de uma despedida. Ela estava prestes a aposentar. Vi em seus olhos o desejo de descanso, assim como na despedida também haviam saudades antecipadas e congratulações.
 
O folhear dos dias parece mesmo estranho: duas pessoas blindadas com cordiais “bons dias” no trabalho, depois de um longo percurso em comum, começam a rir sem medo dos acertos e dos erros da jornada e a compartilhar histórias em tempos que a oralidade perdeu espaço para a instantaneidade das mensagens digitais. Aos poucos, nem que seja no abraço em tom de despedida, retomamos nossa maior riqueza: a improvável espontaneidade. Os gestos autênticos que são tão pouco afáveis às conveniências.
 
Comenta o escritor Fabrício Carpinejar em “Um parafuso a mais”: “É uma encruzilhada colocar a casa para fora da boca. Abrir-se. Expor-se de tal modo que não se pode retornar ao que julgávamos nossa vida, ao que acreditávamos nosso lar, ao que confiávamos como nossas convicções e nossa ordem”. Quem sabe isso explique por que ficamos tão reservados em nossos gestos milimetricamente cordiais, escapamos do envolvimento e ficamos indiferentes a tudo. Para quem não se envolve, talvez seja mais fácil se despedir e não sentir falta. Daí o sentimento de solidão tão comum nas cidades, revelando que estar rodeado de pessoas é diferente de desfrutar de boas companhias. A relação com o outro nos torna, despretensiosamente, mais humanos. Para o afeto é preciso envoltura, ou seja, é preciso desvencilhar da superficialidade que tanto nos detém, ainda que se tenha o risco das perdas em uma despedida, do vento que nos unem e nos levam a outros caminhos.
 
Por acaso do destino que agenda os melhores encontros, dia desses nos esbarramos em uma das avenidas da cidade. Nada foi planejado, apenas o acaso nos reservando bons presentes. Rimos na calçada, atrapalhamos o trânsito de pedestres afoitos para seguir a rotina de trabalho, deixamos em desespero aqueles que nos esperavam para outros compromissos e que tiveram de lidar com nosso atraso repentino. Até porque o reencontro com boas amizades dispensa hora marcada e suas convenções. Uma boa amizade nunca foi apenas uma convenção.
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