12/05/2019 às 09h30min - Atualizada em 12/05/2019 às 09h30min

O trecho - terceiro ato

WILLIAN H STUTZ
“Para provar uma compra gelada, era só de mês em quando — mês mesmo pois raro ia a uma cidade. Quando acontecia era empanturro de iogurte, presunto, sorvete. Mas tinha que comer tudo lá, pois guardar aonde? Era assim”
 
Buscar distância do entojo 
luta sempre pelo novo
fugaz lição de vida.
Da palavra ao aceite o merecido deleite
de tempos a sorrir - prazer, frenesi.



A vida nos traz assombros; 
fugindo sempre de internos escondidos escombros: 
sombrios, úmidos, mas nunca a dar nojo.

Frutos do que criamos, a riqueza bela e clara sempre presente. 
Merecemos?
Experiência, vislumbre sempre a calma 
comum em seu bojo
a lavar com perfumada essência, a alma.


William H. Stutz  in Lições
 
A vila. A vila tinha também seu Pedro Talarico, auto-intitulado oficial da madeira. Italiano, olhos de um  azul clarenado, sumindo pela idade, fez maravilhas de bancos, cantoneiras e cadeiras para nós usando apenas ferramentas primitivas, quase todas por ele mesmo criadas.

Diz que inventou a mesa com parte giratória no centro. E inventou mesmo, dono dos créditos, mesmo atrasado alguns anos, nunca tinha visto uma, pois seja e é verdade — é dono da idéia. Desmente? Não tem jeito. Melquíedes de uma Macondo mineira. Cigano. 
Um pouco abaixo, no mesmo corredor de gado onde morávamos, tem seu José casqueiro, — isso, casqueiro de descascar postes para cerca. No machado e facão. Ambientalista sem saber. Batia firme contra cana e capim “vamos comer o quê” suspirava, mas irritado com tanto pasto e cultura. Letrado de uma leitura só, tinha sempre consigo uma revista velha, de 1945, que falava da guerra, da bomba, ele acreditava que era ontem.

Na vila tem simpatia para desvesgar os olhos. Simples.

Num pilão acende vela, pega a cabeça da infeliz criança e soca lá dentro. Segura o esperneio, gritaria e choro. Pura maldade, tortura. Adianta falar que não funciona? Usávamos o pecado. Às vezes, mãe ou outra parava com medo do fogo eterno. Ignorância.
Luz elétrica era pouca e rara, uma fase só. As raras lâmpadas de poste eram de cor avermelhada. Acrescentavam penumbra à escuridão. Criavam fantasmas, lendas e superstição. O breu total era mais seguro.

Mas tinha sempre as estrelas, a lua. E claro, as mágicas luzes, misteriosas e lindas e é delas que ainda vou falar muito mais.

Televisão tinha em poucas casas. Na nossa, quando tentávamos, era um aranzé: “aponta a antena para Jales, chuvisco, aponta para Paranaíba, mais chuvisco”. 

Às vezes, raras, debaixo do lençol, apertando os olhos via imagem. Confusa mas via, mas sem eira nem beira, som não havia. Desistimos para sempre, era mesmo só chuvisco.

A geladeira virou armário de livros, trocamos o motor por um outro velho, velho, imenso, trocou-se o gás. O chinês curioso tentou arrumar.

Sabe, virou nadiquinha de nada — para provar uma compra gelada, era só de mês em quando — mês mesmo pois raro ia a uma cidade. Quando acontecia era empanturro de iogurte, presunto, sorvete. Mas tinha que comer tudo lá, pois guardar aonde? Era assim. 

Mas tinha as luzes, as luzes. As luzes…

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