11/05/2019 às 14h00min - Atualizada em 11/05/2019 às 14h00min

A arte da tolerância

ÉRIKA MESQUITA
(Marcel Gussoni)
Dia desses, Gil, meu marido, chegou em casa com um presente nas mãos: a minha revista preferida. E na capa estampava o tema “tolerância”.
Logo de primeira, li a frase que me fez refletir: exercitar a compreensão diante das diferenças nos ajuda a caminhar pela vida com mais liberdade, amor e respeito pelo outro e por nós mesmos.

Logo de cara me veio a pergunta: até onde devemos tolerar as coisas e as pessoas? E esse, com certeza, é um dos aprendizados mais importantes e fundamentais para a felicidade. Mas estou falando da felicidade de verdade, essa momentânea, que sentimos e deixamos de sentir rapidamente, afinal, matar um leão por dia parece fácil diante das “antas das quais precisamos desviar”. E aí, novamente, onde está a tolerância?

Conto essa história abaixo, que não é minha, mas me valeu muito. E se você tiver um tempinho reflita sobre ela:

Em um final de tarde, depois de longas horas de conexões em aeroportos, num saguão abarrotado de gente impaciente na fila do embarque, perto de mim, uma mulher e uma criança de uns 4 anos que pedia pipoca e doces insistentemente. A mãe só tentava se manter na fila. O menino então se jogou no chão e passou a gritar e chutar o que estivesse em sua direção. A cena durou alguns bons minutos, mas parecia uma eternidade.

Sem nenhuma tolerância diante da cena, minha vontade era ficar no extremo oposto dessa mãe e desse filho. Mas, ao levantar os olhos, cruzei com o olhar dela. E ela chorava quieta, de maneira contida. E eu, que até um momento atrás queria manter distância dela, me senti muito pequena.
Me aproximei dela e gentilmente lhe disse: “tenho uma filha, tudo dará certo”. Ela assentiu com a cabeça e seguiu chorando. Desabafo. Me reconheci nela, nas lágrimas e no silêncio. Entendi que tolerar algo ou alguém tem, primeiro, a ver com a capacidade de enxergar no outro um pouco de nós mesmos.

Para tolerar é preciso conseguir, entre outras coisas, se reconhecer no outro. E, assim, não necessariamente compactuar com suas ideias ou atitudes, mas entendê-las ou, pelo menos, respeitá-las.

E que o fio condutor disso é a compaixão pelo outro e por nós mesmos, porque, às vezes, precisamos também saber perceber o que é intolerável, o que fere a sua alma. É profundo, é difícil, mas é também necessário para conviver nessa vida com menos hostilidade e mais amor.

Depois de tanto “filosofar” – pois essa é uma coluna que mistura afeto, comida e bebida – escolhi, como uma boa goiana, uma receita daquelas que as pessoas amam ou odeiam; e, neste caso, quem não gosta, não TOLERA nem o cheiro.
 
RECEITA

Frango caipira pira pora, nossa senhora da Abadia!

– 1 frango caipira (daqueles que pastam, não daqueles que comem ração)
– 1 colher de sopa rasa de açafrão
–  3 colheres de sopa de óleo de sua preferência, ou manteiga
– 3 cebolas médias picadas bem picadinhas
– 3 dentes de alho
– Pimenta do reino a gosto
– Pimenta dedo de moça a gosto
– Mais ou menos 2 litros de água
– Cheiro-verde à vontade, e alho poró fatiado fininho
– 15 caroços de pequi
 
Modo de preparar

– Em uma panela, aqueça o óleo, e coloque a cebola para dourar. Deixe dourar bastante, pois ajuda a dar aquela cor linda ao frango. Mas cuidado: se queimar, dará um gosto amargo ao frango
– Assim que estiver dourada, acrescente o alho amassado e o açafrão, deixe refogar um pouco e acrescente o frango, deixando os miúdos: coração, fígado, rins, do lado de fora. Refogue bem, frite o frango até todos os pedaços ficarem bem dourados.
– Verifique se o frango estiver bem douradinho e escorra o excesso de óleo, acrescente os miúdos, os pequis e vá acrescentando água aos poucos. Deixe a panela sempre tampada e acrescente também a pimenta.
– Deixe cozinhar e vá acrescentando a água. Assim que estiver cozido, desligue e acrescente cheiro verde picado e alho poró.
 


Risoto de quiabo
 
– 300g de quiabos lavados, secos e em pedaços cortados na diagonal
– 400g de arroz arbóreo ou carnaroli
– 150ml de vinho branco seco
– Uma cebola e meia cortada em pequenos cubos
– 3 dentes de alho triturados
– Um litro e meio de caldo de galinha ou de legumes (aqui em casa faço com antecedência e leva ervas, temperos, cenoura e alho poró)
– 50g de queijo parmesão ralado
– 2 colheres de sopa de manteiga
– Sal e pimenta do reino moída na hora

Modo de preparar
– Coloque um pouco de manteiga numa panela e deixe esquentar. Adicione o alho sempre antes da cebola, pois a cebola solta água e não deixa o alho refogar
– Junte o arroz e refogue bem
– Adicione o vinho, continuando a mexer, até evaporar o álcool
– Coloque o caldo (de galinha ou legumes) aos poucos, sempre mexendo
– Quando o arroz estiver quase no ponto, acrescente o quiabo que deverá ser feito em um frigideira separadamente, apenas com azeite quente ou manteiga. Frite os quiabos secos sem mexer muito e no final tempere com sal. Ele ficará sequinho, e não precisa usar mais nada
– Verifique os temperos e corrija, se necessário
– Assim que o arroz estiver no ponto, coloque a manteiga e continue mexendo
– Adicione o queijo parmesão ralado, e dê uma última misturada
– Sirva imediatamente
 
Algumas dicas importantes da Érika sobre as receitas:
– O segredo para ter um risoto saboroso de quiabo é acrescentar o quiabo apenas no final, pois se ele cozinha muito fica amarelo e babento. Frite sempre em azeite quente (óleo ou manteiga) e nada de mexer muito
– É um prato fácil e que impressiona, principalmente aos que não têm muito costume de comer este ingrediente
– Separe sempre um pouco de quiabo para jogar por cima do risoto, fica bonito e os que ficam por cima são crocantes e muito saborosos


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