09/05/2019 às 09h03min - Atualizada em 09/05/2019 às 09h03min

Esquecimento

IVONE GOMES DE ASSIS
A pressa cotidiana tem nos conduzido ao esquecimento. Alguns esquecimentos são até benéficos, pois apagam traumas, mágoas, contendas e outros. Muitas vezes, até seria possível entender o esquecimento como algo natural, não fosse o esquecimento que abocanha a ética, o sofrimento, a esperança e afins.

No estudo “Memória, Esquecimento, Silêncio”, Michael Pollak, enquanto escreve sobre a doutrinação ideológica quanto às lembranças confinadas ao silêncio, de um povo que levava os fatos, oralmente, de uma geração a outra, o autor anuncia: “O longo silêncio sobre o passado, longe de conduzir ao esquecimento, é a resistência que uma sociedade civil impotente opõe ao excesso de discursos oficiais. Ao mesmo tempo, ela transmite cuidadosamente as lembranças dissidentes nas redes familiares e de amizades, esperando a hora da verdade e da redistribuição das cartas políticas e ideológicas”.

Bem sabemos que memórias subterrâneas, muitas vezes, se apagam como defesa. Mas o silêncio e o esquecimento carregam variáveis que não podem fazer parte da vida de ninguém.

É comum a ingratidão estar atrelada ao esquecimento, e mais trivial ainda é fechar os olhos à dor do outro. As pessoas são feitas de emoções, por isso é muito importante sermos gratos e não nos esquecermos daqueles que iluminam o nosso entorno – de perto ou de longe –. É bom que sejamos menos virtuais e mais presenciais. Vejamos o caso das mídias, por exemplo: o jornalista divulga a notícia, divulga os eventos, divulga os produtos, divulga... divulga... divulga... Quem recebe o bem, abre um sorriso largo e fica por aí. Quem não recebe, faz bico, dá birras e, às vezes, até vai contra. Se divulgam política, então... os aliados aplaudem, os contrários ateiam fogo. Ora, a sensatez está em absorver a parte boa e modificar a parte ruim, lembrando que a mídia é somente um canal, e não um mentor.

Esses mi-mi-mis ocorrem também no trabalho, na escola, no cotidiano... E não entendo o porquê de nos trancafiarmos no silêncio do bom e escancararmos no blá-blá-blá do ruim, enquanto devia ser o contrário. A vida, nossa preciosa e curta vida, passa tão rápido, e por ela passam pessoas tão incríveis. De minha parte, penso que sou pura gratidão, mas posso estar equivocada, não vendo meus alfinetes. Sou grata a Uberlândia, que me recebeu como filha. Sou grata aos meus professores que me ensinaram e corrigiram-me sempre que necessário. Sou grata aos jornais, TVs, rádios, redes, leitores, sociedade e família, que sempre estiveram ao meu lado. Se criticam, ajudam-me a consertar, se elogiam, massageiam meu ego, de toda sorte, estão contribuindo. É incrível olhar para a vida com o coração aberto, com sintomas de gratidão, isso nos faz crescer.

É fato que, na condição de “pessoa gente”, todos estamos sujeitos a falhas, mas isso é também parte do progresso. O que não podemos é nos aprisionar na negatividade.

A poetisa portuguesa Florbela Espanca, em seu poema “Esquecimento” escreve: “Esse de quem eu era e que era meu, / Que foi um sonho e foi realidade, / Que me vestiu a alma de saudade, / Para sempre de mim desapareceu. / Tudo em redor então escureceu, / E foi longínqua toda a claridade! / Ceguei... tateio sombras... Que ansiedade! / Apalpo cinzas porque tudo ardeu! / Descem em mim poentes de Novembro... / A sombra dos meus olhos, a escurecer... / Veste de roxo e negro os crisântemos... / E desse que era meu já me não lembro... / Ah, a doce agonia de esquecer / A lembrar doidamente o que esquecemos!...

Assim pensando, esqueçamos somente as mágoas, para darmos lugar a novas alegrias.
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