07/05/2019 às 08h19min - Atualizada em 07/05/2019 às 08h19min

O vestibular do Ladário

ANTÔNIO PEREIRA
O saxofonista uberlandense Ladário Teixeira, nascido em 1895 e falecido em Belo Horizonte em 1964, tem histórias belíssimas. Vamos contar uma. Era filho do Agente Executivo, farmacêutico, músico, político, rábula, jornalista, maçom, José Teixeira de Sant’Anna e d. Francisca Augusta Teixeira. Os filhos deste casal foram gente trabalhadora, inteligente, entre eles, dois cegos de nascença: Lucília e Ladário. Ela, bordadeira; ele, músico. Lucília era tão perspicaz que assustava as pessoas ao referir-se a pormenores de forma e da cor dos objetos. Exímia profissional, fazia colchas com impressionantes simetrias. Ladário tinha os sentidos apuradíssimos. Em casa, nas ruas da velha Uberabinha e das capitais europeias onde se exibiu, movimentava-se à vontade. Certa ocasião, encontrou, nos porões de sua casa, um velho saxofone do pai. Mostrando interesse pelo instrumento, Sant’Anna ministrou-lhe as primeiras lições. O resto aprendeu sozinho e tentando imitar o som dos discos do grande flautista Patápio Silva, falecido em 1907. Dedicando-se com amor ao instrumento, atingiu execuções que maravilharam seus ouvintes. Tirava do sax sons inéditos, inclusive a imitação de outros instrumentos como o violino, o violoncelo, a flauta e até a voz humana. Apresentava-se em cidades da região em dupla com o Barraca, exímio clarinetista, maestro da Banda Municipal criada por Tubal Vilela. Ladário tocava detrás das cortinas enquanto Barraca estimulava a plateia a descobrir que instrumento estava sendo executado.

Ladário gravou, no final dos anos 1920, na Odeon “Fantasia Brilhante” (J. B. Singelé) e “Airoso” (Bach).  Na Parlophon gravou Fantasia de Concerto I e II (Patápio Silva), “Soluços de Jegue” e “Canto de galo” (ambas dele mesmo) e “Canção sem palavras” (W. Hauer) e “Serenata” (Hans Sitt), num total de quatro discos em 78 rpm. Localizamos três destes discos: dois em Curitiba com o colecionador Leon Barg, e um no Rio, com o musicólogo Ary Vasconcelos. Até os vinte e quatro anos, Ladário foi analfabeto. Apresentando-se como músico no Instituto Benjamim Constant, de Belo Horizonte, foi convidado a matricular-se e alfabetizar-se. No fim de um ano, já era professor de Braile. Também era analfabeto em música. Matriculou-se no Conservatório Musical de São Paulo onde pretendia não só conhecer a teoria e a técnica, como aprimorar-se na execução do seu instrumento. Para serem admitidos no Conservatório, os candidatos submetiam-se a um teste prévio, espécie de vestibular, perante banca formada por maestros. Os candidatos faziam, antes de se apresentarem, uma relação do que pretendiam executar e entregavam aos examinadores. Foi o que o Ladário fez.
Ao apresentar-se à banca, o maestro Alfério Mignone, pai do conhecidíssimo Francisco Mignone, ao examinar sua programação prévia, aconselhou-o a mudá-la. Ladário insistiu. Queria executar aquelas músicas.

- Mas são peças para violino. A transposição é muito difícil. O senhor pode se prejudicar.
Ladário, entretanto, confirmou convicto o programa.
- Pois então, vamos lá.
O nosso músico apresentou em seu acanhado instrumento diversas peças eruditas para violino, de difícil execução e pior transposição. A banca empolgou-se. Terminado o teste, Mignone aprovou-o, mas negou-se a matriculá-lo no curso de saxofone.
- O senhor pode matricular-se no curso que quiser, menos no de saxofone.
- Por quê?
- Porque não temos professor capaz de ensinar-lhe mais do que o senhor já sabe.

E foi assim que o grande e esquecido saxofonista Ladário Teixeira, aprendeu, em Conservatório, a tocar... violino.
 
(Fontes: João Edison de Mello, Tito Teixeira, Ary Vasconcelos)
 
 
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