19/04/2019 às 08h00min - Atualizada em 19/04/2019 às 08h00min

Aviso aos navegantes

CELSO MACHADO
Estive recentemente em Portugal numa viagem que durou 20 dias. Desta vez escolhemos conhecer cidades menores no interior para vivenciar os costumes, tradições e a vida que seus habitantes desfrutam.

Não só nas principais Lisboa e Porto, em outras como Vila Nova de Gaia, Braga, Barcelos, Lamego, Setubal e ainda menores como Guimarães, Viana do Castelo, Estremoz, Tomar, Pinhão... fiquei impressionado com a “invasão brasileira”. Não só como turistas, mas principalmente trabalhadores. Nas mais diversas atividades, principalmente no atendimento em estabelecimentos comerciais, lojas, restaurantes, etc.

Realmente Portugal possui atributos que nos atraem. A começar pela segurança que nos propicia gostosos passeios noturnos pelas ruas sem medo de violência. Sim, a faixa de pedestre lá é respeitada. Para nós que não estamos acostumados chega a causar espanto as pessoas atravessando ruas sem sequer olhar para o lado para ver se os carros irão parar.

Circular por estradas muito bem pavimentadas, a grande maioria em pista dupla sem receio de encontrar buracos, má conservação e afins. Viajar de trem pelo país e pela Europa toda com conforto, tranquilidade e interessantes condições financeiras.

Da culinária e dos vinhos nem preciso falar. Só a recomendação com a quantidade de consumo seja em comida ou na bebida. Engana-se quem pensa que português não bebe cerveja. Sim, e muita. É até possível para nós que preferimos “no ponto” encontrar em muitos locais umas bem “fresquinhas” que é como chamam as bebidas geladas por lá.

Nas conversas que tive com brasileiros que estão lá há algum tempo são unânimes os elogios aos sistemas de saúde, ensino e transportes públicos. Enfim, predicados suficientes para justificar essa crescente atratividade que muitos brasileiros nutrem de mudar para lá. Mas é bom dar um aviso aos navegantes que nutrem esse desejo. Portugal realmente é bom, muito bom, mas não é o Brasil. Ir para lá exige sacrifícios que não são poucos. Ralar para conseguir oportunidades, trabalhar muito, ter sempre uma boa dose de humildade e paciência (e a dose nem sempre é pequena) para aceitar e conviver com comportamentos, hábitos e tradições milenares, algumas com uma lógica difícil de compreendermos. Esquecer definitivamente o “jeitinho brasileiro” e aceitar as diferenças de um país que também tem suas questões.

Como filho de português não é fácil para eu entender isso, mas a maioria dos brasileiros com quem fiz contato, sentem muito, mas muito mesmo, a falta do nosso calor humano. Talvez seja não porque nossos “patrícios” não sejam afetivos, mas nosso jeito de ser descontraído, irreverente, alegre e por vezes inconsequente, é único.

A gente volta, não porque temos que retomar a nossa rotina, mas porque voltar para a terra da gente também é bom demais. E volta pensando que país maravilhoso seria o nosso tão querido Brasil se tivéssemos os mesmos quesitos básicos da saúde, segurança, educação e infraestrutura de uma nação tão pequena como Portugal.

Mas convenhamos: aí é viajar demais...
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