14/04/2019 às 08h00min - Atualizada em 14/04/2019 às 08h00min

Pescaria II

WILLIAM H STUTZ
De Ouro Preto - Contei na edição de domingo passado deste jornal, 31 de março, o primeiro dia de minha primeira pescaria com um amigo. Se não pegou o fio da meada e estiver interessado, não se preocupe. A data de domingo passado me dá arrepios, tem gente querendo renascer lembranças de pesadelos enterrados, mas muito vivos na memória de quem sofreu pesado. Vamos deixar como está para ver como é que fica, porém não custa uma rezinha para expurgar o de ruim e passar olhos no começo desse contar.

No primeiro dia de beira-rio só se pegou sol abrasador e carapanã, quase do tamanho de pardal, aos montes. Entardecer se fez e aí não tem paga para tamanha beleza. O sol vermelho, sangue debruçando sobre a mata, derramando ouro por todo rio. Milhares de pássaros a cruzar em bandos, a ponto de cobrirem parte do céu, como aquarelas dignas de um Renoir, um Monet, uma Cathy Veali ou de uma Ana Abdalla, prata da casa a despontar no registrar natureza com suas suaves e vivas pinceladas.

Ninguém pegou piaba que fosse. O que se faz à noite em rancho de pesca sem história de peixe a contar? Beber, comer e jogar baralho. Não sou do dominar cartas, porém era bom e dava sorte no jogo de mico, que adorava jogar com meus filhos quando crianças. Contudo, a história tomou ar complicado quando o amigo me contou que perdeu dinheiro alto em rodada de truco, mesmo saindo com Espadilha, Zap e Sete de copas. Esta história me lembrou a do tatu pescado, que um dia contei. Esta sim parece coisa de pescador.

Deu noite alta todos se alojaram no barracão de teto baixo e telhas de fibrocimento, fresquinho que nem boca de fornalha de assar pernil. Pois foi só pegar no primeiro cochilo e começar a perceber algo voar bem rente a seu rosto, daquele de deixar vento forte como sopro de vela longe. Enrolado no lençol, cobrindo até o nariz, olhos arregalados a observar vultos aumentados pelo medo a lhe passar rente. Morcegos. Afinal o rancho ficava fechado boa parte do tempo e ali se alojaram em tranquilidade. Incomodados com os intrusos, buscavam com rasantes entender os invasores. Dormiu de exaustão. Além do dia repleto de novas sensações, rio, jacaré, história de onça e muita, mas muita cerveja, os morcegos o deixaram acordado até tarde. Na realidade o expulsaram da tapera.

Saiu na escuridão com lanterna. Ao iluminar um galho próximo, novamente no susto, deu com um bruto lagartão a lhe olhar enviesado. No nada a fazer, apontou a lanterna pro bicho, o iluminando, mas quieto ficou. Apagou por alguns segundos, tornou a acender e lá estava o bicho. Assim fez por longo tempo, a amolar o coitado. Num dos acender, cadê? O bicho sumiu sem nem barulho fazer. Cabreiro, tomou rumo da cama. Preferia os morcegos, que podia percebê-los. Quanto ao calangão, sabe-se lá onde estava. O sono veio sem ele aprazar.

Deu nada não. Seis da manhã a o grito outra vez: − Acorda gente! Hora de botar canoa n’água! Nem, de jeito nenhum saio daqui! Pensou sem abrir olhos. – Vou hoje não, vou dormir até mais tarde, murmurou. Deixou-se ficar a ouvir a algazarra da turma subindo rio. Dormir até mais tarde? Doce ilusão. Não eram nem sete e o calor nas telhas bateu com voracidade afogueada. Suava mais que tampa de marmita. Fim de tarde os companheiros chegaram emburrados, vermelhos e muito ferroados por bicho mosquito. Peixe? Nem um outra vez.

Assim se passaram  os outros dias, a ponto de ninguém mais querer colocar canoa em rio. Ficaram ali na farra das prosas e das carnes trazidas. Pirangueiro comprou de algum sortudo mais longe alguns peixes na medida, assim conseguiram ao menos provar carne diferente. Uma coisa é certa, o amigo descansou que só, esqueceu de problemas e voltava de alma lavada da experiência.

Outra coisa também ficou acertada em sua cabeça que, nunca mais lhe chamassem para pescar, nem em pesque-pague urbano. Visita a aquário nem pensar. Aliás, nem filme com peixe tipo “Procurando Nemo” voltaria a assistir. Tempo passou. Pilha/ paciência novamente a piscar no vermelho. Companheiro de longa data lhe convida para viagem de descanso. Conhecer o grande deserto do Atacama, “logo ali” no Peru.

Pensou, pensou: areia sem fim, calor de acabar, seco que só, sombra nem de passarinho voando. Dispensou. Comprou um pacote para viagem mais calma. Iria para Deir Ezzor, na Síria. Estranho, não sei se voltou. Faz tempo sem notícias.
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