11/04/2019 às 08h00min - Atualizada em 11/04/2019 às 08h00min

Identidade

IVONE GOMES DE ASSIS
“Escrever é prolongar o tempo”. Aos 8 de abril de 2019, o poder executivo publicou, no Diário Oficial do DF, 67, o decreto 39.764, que concede ao governador do Distrito Federal e àqueles que o acompanham: vice-governador, secretários, presidente, diretores de autarquias... cônjuges e parentes de 2º grau, do governador e vice-governador, a ter uma “carteira de identidade funcional” (CIF), que prefiro chamar de “carteira de identidade política”. A CIF será válida enquanto o político estiver em mandato. Nela constarão nome completo, cargo, RG, CPF, filiação, assinatura, foto e outros. O documento virá com os brasões do Brasil e do DF e sua emissão ficará a cargo da Polícia Técnica da Polícia Civil do DF. Isto, por certo, terá alguma funcionalidade para além do status, eu só não sei dizer qual é. Creio, porém, que prestígio como este, de tão longo alcance (de políticos a familiares), deveria ser custeado pelo detentor do produto, a fim de gerar renda para os cofres públicos, e não despesas. Cada qual que pague sua notoriedade política.

Vejamos alguns casos basilares: a documentação pessoal obrigatória (Certidão de Casamento, RG, Passaporte e outros) acaso não é paga pelo requerente? Migremos para as funcionais (CRO, CRC, CRM, OAB...), não são estas custeadas pelos solicitantes? A OAB, por exemplo, além da taxa de inscrição, superior a R$ 200, é seguida pela anuidade que circula em torno de R$ 1 mil. Esses valores variam conforme a área. Portanto, é lícito que os requerentes das CIFs também paguem aquisição e anuidade.

Mas tudo isso que escrevi não passa de meras palavras, utopia de cronista, talvez. E, como escreveu Clarice Lispector, na obra “As palavras...” (2014), “Isto não é um lamento, é um grito de ave de rapina. Escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida”. Mas, quem se interessa? Isto é somente Literatura, “A impessoalidade é uma condição. A loucura é a tentação de ser totalmente o poder”.

Daqui em diante, vou me amparar nas aspas, recheadas de citações de Clarice, visto que situações como estas requerem pesquisa, conhecimento político, sabedoria acima do básico saber de uma reles escritora como eu. Uma vez que “As palavras nada têm a ver com as sensações. Palavras são pedras duras e as sensações delicadíssimas, fugazes, extremas”. E tudo que tenho são as parcas palavras, já a sensação de poder é algo que ainda não experimentei, portanto, julgo-me inapta a questioná-lo. “Não posso destruir ninguém ou nada, pois a piedade me é tão forte como a ira. Não me atendas porque meu pedido é tão violento que me atemoriza. Tenho que proteger os outros – os outros têm sido a fonte de minha esperança”. Não se trata de utopia, mas é de fato uma incógnita. “Só outra coisa eu conheci tão total e cega e forte como esta minha vontade de me espojar na violência: a doçura da compaixão”.

Há tempos em que pensamos com a fome (a necessidade) e há tempos em que pensamos com a gula (a ambição). “Minha violência [...] vem de que outras violências vitais minhas foram esmagadas. Minha gula pelo mundo: eu quis comer o mundo, [...] e o mundo não se queria comível”. Pelo menos, não do jeito que eu o queria devorar, ele “exigia que eu fosse comê-lo com a humildade com que ele se dava. Quando se vai com orgulho e exigência o mundo se transmuta em duro aos dentes e à alma. Eu pensava que a força é o material de que o mundo é feito, e era com o mesmo material que eu iria a ele”. Todavia, estava enganada.

A palavra tem interpretações múltiplas. É preciso enxergar a vida. “A luxúria de estar vivo me espantava na minha insônia, sem eu entender que a noite do mundo e a noite do viver são tão doces que até se dorme, que até se dorme, meu Deus”.

“Estilhaçar o silêncio em palavras, é um dos meus modos desajeitados de” libertar o grito que tenho alinhavado no silêncio. E, igual a Clarice, “Espero soluções porque em tais períodos faço tudo para que as horas passem; e escrever é prolongar o tempo”.
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