31/03/2019 às 08h00min - Atualizada em 31/03/2019 às 08h00min

O problema não foi só 1964

ALEXANDRE HENRY | JUIZ FEDERAL E ESCRITOR
Nascido doze anos depois da tomada do poder pelos militares em 1964, eu só conheço o que aconteceu por meio de estudos. Já li bastante sobre o assunto, apesar de não ser historiador. Com o conhecimento que adquiri, consigo hoje ter uma visão relativamente ponderada sobre aqueles fatos que, nos últimos dias, foram tão debatidos na imprensa. A razão, você já deve saber: Bolsonaro já declarou não ver o período de 1964 a 1985 como ditadura, rejeita o termo “golpe” e acha que a data deve ser celebrada.

Não é possível enxergar os acontecimentos daquele ano com os olhos de hoje. Eu ainda vivi um pouco dos tempos da Guerra Fria e sei exatamente como tudo era polarizado: capitalismo x comunismo, EUA x URSS, esquerda x direita. Você pode até achar que hoje é a mesma coisa, mas não é. Havia, à época, uma pressão muito grande das duas potências para que todos os países assumissem um alinhamento claro em relação a uma delas. E também havia muito apoio logístico, militar e financeiro para a tomada do poder por ditaduras de esquerda, bem como apoio no mesmo sentido para golpes que evitassem essa tomada de poder pelos comunistas. Hoje, o que falam de ameaça comunista é puro devaneio de quem não conhece direito a história e não possui bom discernimento da realidade. Naquela época, porém, havia de fato uma possibilidade de guinada rumo a uma política alinhada aos soviéticos.

É nesse contexto que muita gente apoiou os militares na derrubada de João Goulart. Quando eu digo que o problema não foi só 1964, eu estou querendo dizer, só para começar a explicar o título deste texto, que os acontecimentos daquele ano também foram problemáticos, apesar de compreender que se deram em circunstâncias especiais. Minha condenação à atitude dos militares é pelo fato de ser, evidentemente, uma saída não democrática. Não tiraram Collor? Não tiraram Dilma? Ambos, apesar de muitos questionarem os motivos, saíram pelas vias constitucionalmente previstas. Já com Jango não foi assim. Ele foi coagido a deixar o país, abrindo espaço para uma mudança de governo falsamente democrática, seguida por uma chegada de Castelo Branco à Presidência também por vias apenas aparentemente democráticas.

Mas, vá lá. Havia, de fato, apoio popular de respeitável monta e também suporte entre o empresariado. Se considero 1964 um golpe e se entendo que seria necessário, antes de tudo o que aconteceu, tentar exaurir todas as vias realmente legais para a mudança do regime, por outro lado concordo que havia certa legitimidade (no sentido de apoio do povo) ao que foi feito. Só que a intenção inicial, que era afastar a possibilidade dos comunistas tomarem o poder, virou justificativa perpétua para que somente militares assumissem a Presidência por mais de duas décadas, impedindo a realização de eleições diretas para o cargo. Houve, pois, o que ficou conhecido como o “golpe dentro do golpe”, nos anos finais da década de 1960, quando a ala mais radical dos militares suplantou os moderados, assumiu o governo e enterrou de vez qualquer aspiração democrática.

Se a intenção era afastar a ameaça comunista e se o único caminho possível – ainda que eu discorde disso veementemente – era pela derrubada do presidente pelos militares, bastava então colocar os partidos de esquerda na clandestinidade e, na data já prevista para as eleições que escolheriam o novo presidente, deixar que o povo votasse em quem quisesse, até porque um dos nomes fortes à época era o de Juscelino Kubistchek, que de comunista não tinha nada. Se ganhasse alguém ligado à esquerda, vá lá, que fosse derrubado de novo e convocadas novas eleições (com meus protestos contra essa solução). Mas, nada justificava, mas nada mesmo justificava a permanência dos militares na Presidência. Na pior das situações, como eu disse, que eles servissem de faca na garganta do presidente civil, ameaçando de degola qualquer um que se inclinasse um pouquinho que fosse rumo a Moscou. Bastava isso. Não precisava de Costa e Silva, Médici, Geisel e nem Figueiredo.

Em resumo, eu não sou um crítico cego do que aconteceu em 1964. Procuro enxergar o que ocorreu naquele ano com as lentes da Guerra Fria e, com isso, amenizo muitas das minhas próprias críticas ao golpe. Porém, daí a concordar com duas décadas de presidentes militares, nem mesmo com os melhores óculos da história isso é razoável, a não ser que sejam óculos feitos de lentes devidamente embaçadas para não se enxergar corretamente o que aconteceu.
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