24/03/2019 às 08h00min - Atualizada em 24/03/2019 às 08h00min

A sexualidade feminina

ANGELA SENA PRIULI
Se é para se empoderar, como na última semana, vamos falar de sexo... assunto polêmico "pra mais de metro", especialmente quando se trata de nós fêmeas, de donzelas a senhoras.

Para jogar um brilho feminino na CiênciaPop do mês das mulheres, convidei a Dra Thaís França de Araújo, ginecologista e especialista em terapia sexual pela Universidade de São Paulo (USP), para nos fazer refletir sobre o momento que estamos no quesito sexualidade. Confira!

Durante séculos, a sexualidade feminina foi marginalizada, e por questões culturais o sexo até algum tempo era visto como algo ligado a reprodução. O prazer sexual era moralmente reprimido, considerado pecaminoso e condenável. Hoje, o sexo é um assunto popular e cotidiano na vida das pessoas. O ideal de reprodução deu lugar ao prazer propriamente dito, e as pessoas podem escolher como querem vivenciar sua sexualidade de uma forma um pouco mais natural e livre. Entretanto, a marginalização da sexualidade tem raízes firmadas na história. Somos educadas por mulheres, numa sociedade onde a virilidade e o prestígio do macho estão longe de serem apagados, e ainda para agirmos como filhas e mães sem passar pelo estagio de mulher.

A mulher brasileira desde que nasce é educada ‘para dentro’. É criada para servir, para ser obediente, casar, respeitar seu marido, ter filhos, ser dona de casa, sujeitar-se a um trabalho exaustivo, sem folgas ou reconhecimento. Quando criança, deve ter bons modos e controle sobre sua vontade. Na adolescência, não é preparada para a vida, mas sim para negar o prazer, cheio de culpa, censura e medo. Nesta fase, as questões sobre sexo geram constrangimentos e são respondidas de maneira incompleta ou ignoradas. Se ela deseja algo mais, lhe vem inconsciente ou consciente a ideia de que não é certo.

Nesse contexto cultural, quando a mulher apresenta alguma queixa na esfera sexual, ela não tem a quem recorrer. Quando a queixa é feita aos profissionais da área da saúde, muitos não estão preparados ou não tem interesse em ouvir e manifestar algum tipo de ajuda. Orientar a mulher sobre o autoconceito (pensamentos sobre si mesmo) é fundamental para uma sexualidade prazerosa e sem culpa. Assim, a ajuda de um profissional especializado vem para auxiliar nesse caminho que pode trazer leveza e muito prazer a todas as mulheres.

Em uma sociedade que não incentiva a masturbação feminina e o autoconhecimento, a orientação do profissional vem como algo fundamental na vida dessas mulheres. O processo de autoconhecimento e autoconceito leva a uma melhora da autoestima que influencia positivamente na melhora da sexualidade. Quanto mais aceitação pessoal, bom autoconceito e autoestima, além do conhecimento do seu corpo e do que lhe traz prazer, melhores as chances de ter uma vida sexual saudável e prazerosa.

Por último, mas não menos importante, devemos lembrar que a sexualidade vai além da satisfação física do desejo e da sensação de prazer alcançada e também não deve ser considerada como meio exclusivo do casal em obter felicidade. A intimidade e o vínculo devem ser fortalecidas pelo carinho, amor, diálogo entre o casal.

Em tempo, conheça-te a ti mesmo mulher! Mas se preciso for, busque auxílio para viver sua sexualidade a todo vapor.
 
Fontes:
 
GÓIS, M.M.S. Aspectos históricos e sociais da anticoncepção. Reprodução, v. 6, n. 3, p. 119-24, 1991.
DIAMANTINO, E.M.V. et al. Aspectos básicos da sexualidade humana na parte clínica. Parte I. Feminal, v. 21, n. 10, p. 1016-29, 1993a.
DIAMANTINO, E.M.V. et al. Aspectos básicos da sexualidade humana na parte clínica. Parte II. Femina, v. 21, n. 11, p. 1152-80, 1993b
 
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