13/03/2019 às 09h35min - Atualizada em 13/03/2019 às 09h35min

Experiências na China

ANA MARIA COELHO CARVALHO
Tenho um irmão especialista em siderurgia. Sempre viaja para a China para intermediar importações de coque (carvão mineral) e acaba vivenciando cenas interessantes.

Como em Pequim, quando estava em uma kombi com cinco chineses e três brasileiros, todos bem apertadinhos, procurando uma fábrica de refratários (tijolos para serem usados a 1700° C). A certa altura, a kombi quase foi arrastada por centenas de estudantes que saiam das escolas ao mesmo tempo: bicicletas voando, meninos correndo, balbúrdia em chinês, uma multidão incrível. Em outra ocasião, viu uma velhinha atravessar, de bengala, uma pista de seis vias. Ela simplesmente resolveu e foi. Todos os carros pararam para ela passar, depois de muitos pneus derrapando e gritos de terror. Ele descobriu mais tarde que, se alguém atropela um velho na China, passa o resto dos dias atrás das grades. E se for estrangeiro, simplesmente somem com ele.

Em cidades menores, como em Vuxi, observou uma fila de velhinhos se alternando para furar o chão de concreto, usando uma furadeira. Todos alquebrados, magros, enrugados. Quando um se cansava, passava a vez para o outro e ia para o fim da fila. Tudo em troca de um prato de arroz por dia, mas eles se sentiam valorizados pelo trabalho.

Em Ping Yao City, visitou um castelo de 4.500 anos e andou por uma rua da mesma idade, já afundada pelo peso dos anos e da multidão de chineses transeuntes. Lá, ficou observando chineses carregando água, em baldes dependurados em um pau, retirada de um poço profundo e límpido, de 2.500 anos, onde se chegava descendo escadas tortuosas.

Em Tianjin, no Teda Internacional Hotel, no café da manhã, roubaram sua pasta com 6.000 yuans, passaporte, passagem, cartões de crédito, máquina fotográfica (ele carrega tudo). No vídeo que registra as cenas do hotel, apareceu um chinês alto, bonitão, de terno preto e gravata berrante, aproximando-se da mesa. Ele agarrou a pasta calmamente e saiu do restaurante. Voltam o filme várias vezes e concluem que tem mesmo um ladrão no hotel. Espanto geral, chineses correndo para todo lado. Chamam a polícia e chegam vinte policiais pequeninos, com fardas principescas. Uma garçonete reconhece que o ladrão é um hóspede do hotel e encontram a pasta roubada no quarto dele. Meu irmão toma litros de chá, de todos os tipos, para se acalmar. No final, os policiais explicam (com gestos, mímica, inglês fajuto e chinês), que foi tudo um engano, o hóspede pensou que a pasta era do seu amigo, e que ele, o amigo, a tinha esquecido na cadeira (se fosse ladrão mesmo, teriam cortado a mão dele, na China é assim).

Na província de Wuxi, lá no fim do mundo, os chineses ficaram encantados com a chegada dos estrangeiros (ele e um amigo) e ofereceram-lhes um jantar de 36 pratos. Quanto mais importante a pessoa, maior o número de pratos: 12, 24 ou 36. Este último é um luxo, tem de tudo: pato, ganso, peixe, cachorro, cobra, escorpião. Os convidados devem experimentar todos, para não serem descorteses. Mas o problema mesmo foi um pratinho com um molho vermelho. Meu irmão pensou que era catchup, molhou o peixe e comeu. Pra que! Era pimenta da brava. Ficou vermelho, a garganta fechou, os olhos esbugalharam, perdeu a fala e a respiração. E o amigo dele também. Chinezinhos correram na cozinha e buscaram sal pra eles engolirem. Não morreram, mas ficaram bem tristinhos e quietinhos em um canto.

Pretendo um dia ir com ele, sentir de perto a magia da Grande Muralha da China. Mas sem comer pimenta.
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