01/03/2019 às 09h12min - Atualizada em 01/03/2019 às 09h12min

Definitivamente, o trabalho mudou

MARIANA SEGALA
Nesta semana, um amigo dos mais atuantes do ecossistema de inovação de Uberlândia assumiu um novo desafio profissional: tornou-se community manager – ou gestor de comunidades – em uma startup local, a Netsupport, plataforma que conecta técnicos de informática com quem precisa contratar serviços de suporte. Talvez você nunca tenha ouvido falar nessa função, e não é para menos. Há uma profusão de novas profissões, algumas jamais imaginadas, em ebulição nesse exato momento, derivadas dos modelos de negócio pioneiros gerados nesses novos tempos. Um gestor de comunidades, por exemplo, tem a função de se comunicar com os públicos de interesse das empresas de modo a engajá-los com os seus negócios. Não se trata apenas de uma aproximação com os clientes. Numa companhia que dependa de uma rede ampla de fornecedores – pense na Uber e nos seus motoristas – é importante mantê-los envolvidos também. Usar ferramentas como as redes sociais para criar um clima de comunidade entre todas essas partes é papel do gestor.

É curioso passear pelos anúncios de emprego do setor de tecnologia. Quem se habilita a assumir o posto de curador de chatbot? Jocosamente, Rafael Gouvêa, CEO da empresa de tecnologia Neppo, define a função como “babá de robô”. Lembre dos chats disponíveis nos sites de bancos ou telefônicas para que os clientes tirem dúvidas e encontrem informações. Eles usam inteligência artificial para dar respostas às perguntas dos consumidores. O chatbot busca sozinho a informação que atende à questão em um enorme banco de dados. Mas há a mão humana aí. Alguém ensinou ao sistema que quando digito “taxa cheque especial” quero saber qual o tamanho dos juros dessa modalidade de crédito. E isso o agente virtual “aprende” com o curador de chatbot.

Cabe a esse profissional triar as demandas e indicar quais são as melhores respostas para que, com o tempo, esse processo ocorra autônoma e naturalmente. “Assim como uma criança precisa de uma babá para orientá-la, o robô precisa de alguém que faça o mesmo por ele”, diz Gouvêa. Um exemplo da relevância dessa função é o caso extremo em que um cliente use o chat para descarregar sua raiva contra uma empresa. Se não houver um curador indicando que aquelas informações devem ser descartadas, o robô as absorve. “E é possível que acabe respondendo com xingamentos também”, conta o executivo.

No quadro de funcionários da Neppo, há cinco curadores de chatbot. Outras empresas, como a Algar Tech, também possuem a função no seu quadro de vagas – assim como a de especialista em cognição ou a de analista de experiência do usuário. Empresas de monitoramento agrícola contratam “pilotos” – ou operadores – de drones, pessoas que traçam e acompanhem as rotas dessas pequenas aeronaves não tripuladas. Muitas dessas profissões envolvem habilidades não aprendidas atualmente no ensino formal. Capacidade de análise crítica, por exemplo, é um requisito de primeira ordem. Mas onde se ensina uma competência tão difusa quanto essa? Certamente, não é nos bancos escolares como eles são constituídos atualmente.

“Séculos atrás, no salto da economia agrícola para a economia industrial, não houve uma necessidade de desenvolvimento de competências tão intensa para que os profissionais se adaptassem à mudança. Os novos trabalhos eram nas esteiras das fábricas, repetitivos e pouco qualificados”, avalia Bernardo Costa, diretor de Transformação Digital e Inovação da Algar Tech. “Mas quando se muda da economia industrial para a economia digital, a lacuna é gigantesca”. E os sistemas de ensino, com sua característica de linearidade e baixo nível de personalização, ainda não conseguiram se adaptar às mudanças. Há vagas abertas há mais de 100 dias na Algar Tech, não preenchidas porque não se encontram profissionais habilitados para tal.

Há que se encontrar maneiras de formar mais profissionais aptos a desaprender a trabalhar como o fizeram durante suas vidas inteiras. E dispostos a aprender a trabalhar com inovação – seja ajudando clientes e fornecedores a dialogar com as empresas e entre si, seja ensinando a robôs o que é certo ou errado.
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