24/01/2019 às 08h32min - Atualizada em 24/01/2019 às 08h32min

Alinhamento

IVONE GOMES DE ASSIS
Neste dia 21 de janeiro de 2019 o mundo, em diferentes horários, assistiu ao único eclipse lunar total de 2019. No Brasil, mais especificamente no quintal de minha casa, a “Super lua vermelha sangue de lobo” surgiu na madrugada. O céu estava acordado, quando Lua, Terra e Sol se alinharam. Foram mais de 20 minutos de espetáculo. Branca e brilhante como uma noiva, a Lua aguardava seu encontro com o Sol. Aquela madrugada de segunda-feira teve uma plateia de astrofísicos, pesquisadores, escritores, namorados, curiosos... todos aguardando aquele encontro da natureza.

A umbra chegou de mansinho, a lua foi sendo tomada pela sombra do Sol. Não há como não relembrar das cenas incríveis que os cinemas trazem, com lobos uivantes em lua cheia. Durante o eclipse lunar, a Terra parecia se envergonhar por servir de “vela”, enquanto sol e lua se alinhavam, então, sua face enrubesceu, avermelhando a lua. Dizem os pesquisadores que é a atmosfera da Terra, que ao refinar a luz azul e verde dos raios solares, deixou escapar a luz vermelha. Mas contamos histórias, porque é mais gostoso de ouvir. Nesta segunda-feira, além dos casais apaixonados e outros observadores, creio que até mesmo os pirilampos, os morcegos, a floresta e sua bicharada, a lagoa e sua sapaiada, pararam para assistir à Lua Vermelha, para depois criarem suas histórias. Como nos ensina Manoel de Barros: “No campo as árvores dormem banhadas em luz de luar… (p. 51), pois, “Sabe que a lua tem gosto de vaga-lume para as margaridas” (p. 174-175).

Diante de tanta beleza, vale citar o poema “A lua no cinema”, de Leminski (1991): “A lua foi ao cinema, / passava um filme engraçado, / a história de uma estrela / que não tinha namorado. // [...] Era uma estrela sozinha, / ninguém olhava pra ela, / e toda a luz que ela tinha / cabia numa janela. / A lua ficou tão triste / com aquela história de amor, / que até hoje a lua insiste: / — Amanheça, por favor!”. Qual não é a grandeza deste poema?!

Fiquei ali, parada, vendo a sombra se misturar com o brilho. Primeiro uma pequena fatia. Meia lua. Mais de meia. Lua cheia. Há um trechinho da obra “Aventuras de Huck” (de 1876), em que o autor, Mark Twain, descreve: “Como já estivesse escurecendo, levei a canoa para debaixo duns salgueiros que pendiam seus ramos sobre a água e fiquei à espera de que a lua nascesse” (p. 62). “O rio estendia-se por milhas e milhas, e a lua brilhava com tal fulgor que era possível contar os troncos de árvores boiantes ao sabor da correnteza. Reinava profundo silêncio e parecia ser tarde da noite” (p. 63). “É surpreendente a profundeza do céu quando o admiramos, deitados de costas, em noites de plenilúnio [Lua cheia]! E como se pode ouvir longe em tais noites!” (p. 64).

Penso que eu fiquei, como Twain, basbaque, mediante a beleza e a profundidade daquele momento. Enquanto o olhar grudava a cena, os ouvidos apreendiam os sons que vinham da madrugada. Geralmente, as ruas conversam, enquanto seus moradores afugentam o espanto que os consome. Contudo, naquele 21, cidades, calçadas, ruas, canteiros, praças..., ao som dos acordados, fizeram as pazes, tal qual deve ter acontecido entre matas, sombras, bichos, pássaros, peixes, águas, homens do campo e nativos... à luz das estrelas e ao som de grilos, porque estes não se calam por nada, todos se uniram para ver o encanto da lua.

A beleza avermelhada daquela lua, pode ser facilmente comparada às cenas do livro “Bruna, uma luna”, de Lionizia Goyá (2018, p. 10-11), quando a menina aguarda a exuberância da lua prateada, depois, voltando para revê-la, “Na próxima noite de lua cheia / À meia-noite e meia [...] Luna apareceu. [...] Em VERMELHO sedoso / Escancarava o veloso / Um fruto doce e gostoso: o VELUDO do Cerrado [...]”. E assim a menina vai apresentando o cerrado, na companhia da lua vermelha e outras luas cheias, no mais perfeito alinhamento.
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