22/01/2019 às 08h48min - Atualizada em 22/01/2019 às 08h48min

Do subsolo para a nuvem

ENZO BANZO
Mal começou o ano e já estava no ar a “Antologia Subsolo 2019”, publicação virtual com textos literários inéditos em verso, prosa e HQs, tudo escrito por uma leva de mais 50 autores de Uberlândia. Foi no dia 1º de janeiro, o mundo girando parado na virada do feriado, aquele clima estranho de posses e ressacas, a cultura pra onde vai (?), e agora, José? Misturada nas perguntas, esta antologia trovejava na nuvem em tom de resposta: oi, estamos aqui, fazemos e faremos arte, com licença (ou sem, se for o caso). "E fora a fofoca, estamos bem e felizes", completaria Alberto Rodovalho, um dos escritores.
 
Os textos são amostras de uma cena inquieta e diversa, composta por habitantes de um mesmo subsolo que insistem em criar literatura. Juntos, mas cada um na sua linguagem. No final das contas, melhor é se esbaldar na confusão: "chulé mais verde que chuchu, pé confundiu-se com abacate", foi Alanna Fernandes quem escreveu.
 
Estes autores com nomes iniciados em "A" citados logo de início me lembram que os textos estão organizados em ordem alfabética, sem tentativas de agrupamentos em temas ou estilos. Qualquer experiência com uma ordenação que procurasse desvendar as verdades da antologia logo seria questionada, aos risos, em plena mesa do bar do Jorge, pelo Chico de Assis, que nos diria: "a verdade é overdose de nada / latejando num poema mudo. / No espelho é uma imagem parada, / contemplando a metade de tudo".
 
Longe da pretensão de esclarecer o conjunto da obra, aventuro-me a divagar sobre alguns escritos, lamentando não conseguir falar de todos (quem não aparecer aqui já está presente, vão perdoando). Tem, por exemplo, a kafkiana "Desbaratinada", de Isabela Cavalcante, reflexão existencial diante da inevitável ação de matar uma barata: "constato que o que me come por dentro / é que ao matá-la, como foi de manhã / encurralada no ralo do banheiro / a barata desaparece / mas não desapareço". Entre humor e angústia, digressão e realidade, o trivial conduz aos temas mais profundos, em uma construção que se vale da musicalidade do texto poético sem recorrer aos jogos de rima e métrica.
 
No poema também existencial de Mariana Anselmo, e também musical sem rimas, baratas são as bebidas, no contraste de uma imagem banal de fila de supermercado que acaba por provocar uma associação com a passagem do tempo: "Jovens compram bebidas / Baratas / No supermercado / Trago para casa / Pão com manteiga / Ao redor da cabeça / Novos fios brancos / Nascem / Geometricamente". A poesia está longe das construções sublimes, não precisa de figuras edificantes para alcançar as grandes questões humanas.
 
Esta literatura cravada no cotidiano, sem cerimônias, acessa o leitor em sua intimidade, podendo recorrer até mesmo ao formato da carta, gênero a princípio não literário, como em "Baby", de Zé Alfredo Ciabotti: "Por falar nisso, não troquei até hoje a senha do Facebook, só pra você entrar e dar de cara com minha solidão. Talvez te comova. (...) Mas aquele beijo que você me deu, baby, dói até hoje".
 
A diversidade de linguagens dá espaço para se dizer muito com pouco, vide Muryel De Zoppa: "eu / náufrago / em seu / peito / deserto"; ou para desenvolver poemas de maior fôlego, em variações de versos sobre uma mesma estrutura de estrofes, como na anti-oração "Poema de três sujeitos", de Guimarães Lobo: "Eu, o Pai / Eu, o Filho / Eu em pranto."
 
Das narrativas em prosa brotam momentos poéticos, como em Jéssica Ribeiro: "Minha paixão é a mesma, espadas, esponjas, vinagre, cuspes e pregos. Meu ritual é o da lágrima"; ou personagens complexos, como a mãe das "Gêmeas", de Luana Angélica, que relata a "completa ausência de excitação" em sua chegada, de ônibus, ao hospital onde faria o parto.
 
Por traz de tudo isto e do muito mais que não falei, está Robisson Sete, editor deste e de tantos livros, propagador dionisíaco de tantas noites literárias. Robinho andava sumido como poeta, mas resolveu dar as caras com seu texto de muito verbo e vigor, profetizando o destino do poema, desta antologia e de nós mesmos: "e que lixeiros o encontrem, como um tesouro desconhecido, soterrado nos entulhos em frente ao parque municipal e gritem seus poemas como árias de uma ópera subterrânea e suja durante toda a noite, enquanto recolhem pelas ruas nossas almas, fechadas em brancas sacolas plásticas de supermercado circundadas por moscas varejeiras".
Relacionadas »
Comentários »