18/01/2019 às 11h26min - Atualizada em 18/01/2019 às 11h26min

Quem bebe é mais feliz?

ALEXANDRE HENRY | JUIZ FEDERAL E ESCRITOR
Conheço ao menos três pessoas que têm certas características específicas em comum. Primeiro, elas estão quase sempre de bom astral e raramente trazem aquela cara de desânimo que abate quase todo o resto da humanidade com constância. Segundo, elas costumam sempre estar cercadas de amigos. Por fim, as três pessoas amam tomar cerveja por longas e longas horas.

Fiquei pensando: o fato de elas parecerem quase sempre mais felizes indica que a bebida realmente pode deixar alguém mais feliz?

Inúmeros estudos sobre felicidade apontam que uma vida cercada de amigos, com boa e rotineira convivência social, é de grande ajuda nesse sentido. Ora, quem bebe, especialmente a velha e conhecida cerveja gelada, geralmente o faz na companhia de ao menos uma pessoa. Quem gosta mesmo da coisa sempre arruma uma desculpa para reunir gente, seja em casa ou em um bar, a fim de papear e tomar algumas cervejas. Isso me leva à conclusão de que o álcool contribui para a felicidade, ao menos nesse ponto específico, já que ele é um catalisador das relações sociais e as relações sociais são bons combustíveis para uma vida feliz.
Há também estudos demonstrando que o álcool inibe certos neurotransmissores e leva a um estado de relaxamento, reduzindo o nível de ansiedade.

O excesso de ansiedade é um forte causador de insatisfação, o que causa, por sua vez, um estado muito diferente da felicidade. Por isso, é fácil concluir que, se o álcool não deixa a pessoa ficar muito ansiosa, ele contribui para que a pessoa se sinta mais feliz. Aliás, se você parar para pensar, qual foi a última vez em que você viu alguém nervoso sentado em um bar, tomando uma cerveja e conversando com os amigos? Raro isso, não? Se a pessoa está com um copo na mão, geralmente está tranquila e com pensamentos bem longe de comportamentos agressivos ou de preocupações com a vida.

Esses dois fatores indicam que o álcool pode contribuir favoravelmente para a felicidade, sim. A maioria das pessoas que bebe com alguma constância, sem grandes exageros, demonstra estar mais de bem com a vida e mais feliz.

Cheguei a essa conclusão há alguns dias, enquanto lia um livro que abordava o tema (não o do álcool, mas da felicidade). Mas, não parei por aí e comecei a pensar se realmente valia a pena adotar esse caminho como uma solução para uma vida mais positiva. Particularmente, não tenho nada contra bebidas alcoólicas, embora entenda que elas podem causar problemas graves para muitas pessoas. É fato também que provavelmente nunca serei adicto do álcool, pois meu estômago e meu fígado são extremamente afrescalhados: se tomo mais do que dois ou três copos de cerveja ou se como comida muito gordurosa, eles me fazem sentir tão mal que o único jeito é fechar a boca. De qualquer maneira, sempre que saio com amigos, eu tomo alguma coisa e com certo prazer. Enfim, apenas para me posicionar quanto às bebidas alcoólicas, nós temos uma relação amena, sem preconceitos e também sem adorações.

Dito isso, analisei e concluí que as coisas boas que a bebida pode trazer também podem ser alcançadas de outras maneiras. Tudo aquilo que leva você a se reunir com amigos, a ter convivência social constante e interfira positivamente em seus neurotransmissores é capaz de levar aos mesmos lugares a que algumas rodadas de cerveja levam. Esportes coletivos, dança, atuação em grupos de caridade e coisas do gênero trazem os mesmos impactos positivos que as bebidas. Por outro lado, não apresentam os mesmos riscos. Uma das pessoas que citei no começo do texto, por exemplo, já me parece bem tendente ao alcoolismo, embora em nível moderado. Certa vez, saímos juntos e ela percebeu que não poderia beber sua cerveja à vontade naquele lugar: na mesma hora, tudo ficou chato para ela. O álcool intoxica o corpo, prejudica muitos movimentos e ações e pode causar danos complicados à saúde. Enfim, o melhor é buscar outras alternativas, na linha do que falei.

Mas, mesmo com essa segunda conclusão, não me tornei um cruzado contra latinhas de cerveja ou taças de vinho. Ainda que existam caminhos mais seguros para a felicidade do que o álcool, é fato que o seu consumo com moderação pode ser um catalisador da felicidade ao contribuir para aproximar os amigos e afastar a ansiedade. Como o que estamos precisando é de mais pessoas felizes nestes tempos de tanta gente carrancuda, continuo admirando o alto astral das três pessoas que citei, sem colocá-las na cruz por conta do prazer que sentem com a cerveja, ainda que ache que poderiam ser felizes de outras formas.
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