08/01/2019 às 09h10min - Atualizada em 08/01/2019 às 09h10min

Rock samba ninguém manda

ENZO BANZO
Em seu último disco, RSTUVXZ (parece um nome estranho, mas são só as últimas letras do alfabeto), Arnaldo Antunes intercala sambas e rocks. Não, não é um disco de samba-rock como os de Jorge Ben com ou sem Jor, e muito tempo o autor deve ter gastado para explicar este conceito em entrevistas e releases. Uma faixa é samba, a outra é rock, umas mais e outras menos fiéis ao gênero em questão. Não se trata de uma mescla nas composições: as duas fontes estão ali expostas e distintas. Refletindo sobre as diferenças sonoras e poéticas entre uma canção e outra, me peguei a pensar sobre as semelhanças entre rock e samba. E concluí que samba e rock são, no fundo, a mesma coisa.
 
Sim, eu sei, basta ouvir e se nota a diferença:  não são a mesma coisa, na forma, no som, no ritmo, no jeito de cantar. Mas eu disse no fundo, não na superfície. E, no fundo, o espírito da coisa é o mesmo. Samba e rock surgem com intenções comuns: opor-se ao ordinário da vida; dar fim à falta de graça do dia a dia sem graça. Rock e samba vão contra a seriedade que reprime, respondem imposições sociais e culturais em forma de arte, seja pela veia do tambor ou pelos ruídos da guitarra. Um mesmo espírito materializado em diferentes sons e comportamentos. Um nacional, outro importado. Ao seu modo, cada qual em seu desbunde e rebolado.
 
Em sua origem, nenhum nem outro eram bem vistos. Um século atrás, carregar pandeiro e violão era motivo para levar o sujeito pra cadeia. Há pouco mais de meio século, o rock se edificava como trilha da juventude rebelde em relação aos padrões que estava fadada a herdar. Se hoje estes estilos estão mais que assimilados, tais contextos nos fazem pensar no estranho fato de nos depararmos, depois de tanto tempo, com perseguições a artistas, e de forma mais ampla à arte e à cultura, como na época em que sambistas precisavam esconder os cavaquinhos, como no tempo em que os cabelos dos Beatles eram motivo para chocar a sociedade.
 
Diante da estranha sensação de voltar no tempo, faz-se necessária uma outra volta, esta ao espírito da coisa, que moveu o surgimento e a existência tanto do samba quanto do rock, e não só deles: um espírito contraventor, libertário, provocador. No disco do Arnaldo, as duas primeiras faixas (um samba e um rock), apesar de parecerem totalmente diferentes, se cruzam ao apontar para este espírito comum.
 
A abertura do disco é feita pela faixa "A samba", assim mesmo, com "a", invertendo o gênero do substantivo, de masculino para feminino; afinal, se samba termina com "a", por que ser "o samba"? Antunes vai  louvar o samba feminino e o feminino do samba, inclusive em citações nominais: "dona do seu nome, Jovelina, Ivone, Alcione, Clara, é a voz que ousa".  Os versos da canção costuram a postura de um samba, de uma mulher e de uma arte que não se submetem, obedientes somente ao pé que dança. O refrão resume: "ninguém manda, ninguém manda, ninguém manda no que é".
 
O rock que sucede o samba, ou melhor, a samba de abertura, é "Se precavê", ao melhor estilo titânico débil-sagaz, não por acaso uma parceria de Arnaldo com o saudoso titã Marcelo Fromer. Aqui a figura retratada não é da mulher, e sim a do homem sério que só pensa em segurança, obcecado em "se precavê contra as adversidades". Se do outro lado, a menina dança é só obedece o pé, aqui está o homem que não pisa na grama e não perde a hora.  O cara que é o contrário do que o rock quer, retratado e ironizado no ritmo duro e frenético da bateria quadrada e acelerada. Se na samba ninguém manda, tudo o que este personagem deseja é manter a vida organizada e sem perigo. Como já cantava a antiga banda do ex-titã, "quem quer manter a ordem?".
 
Aí estão rock e samba, diferentes sendo a mesma coisa, gritando e rebolando ante as forças contrárias à sua expressão de liberdade. Evocando os poderes da deusa samba, instaura-se uma contraordem feminina em oposição à ordem do masculino precavido, seguro e insatisfeito. Esta samba e este rock, na mudança permanente do espírito da coisa, resultam em um gesto de ir contra, que destrói construindo. Como canta Arnaldo em uma das mais belas faixas de RSTUVXZ: "eu contra o muro / furo / a favor".
 
 
 
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