29/11/2018 às 09h54min - Atualizada em 29/11/2018 às 09h54min

E agora, José?

IVONE GOMES DE ASSIS
Há um poema de Drummond, que vai se construindo por meio da revelação do poeta sobre sua conflituosa dificuldade em extrair ideias do pensamento e revela-las em tinteiro. Ele escreve: “Gastei uma hora pensando um verso / que a pena não quer escrever. / No entanto ele está cá dentro / inquieto, vivo. / Ele está cá dentro / e não quer sair. / Mas a poesia deste momento / inunda minha vida inteira (ANDRADE, 2012, p. 104)”. Confesso que esse processo se deu comigo, quando fui escrever a Literato de hoje. O assunto estava lá, desde o início, mas as palavras não queriam voar para o papel, por não crerem em tamanho disparate humano, que seria revelado.

Neste mês, após ver um homem ser abatido por uma tribo isolada na Ilha Sentinela do Norte, porque aquela tribo não reconhece o homem branco como pessoa. E depois de varrer as informações para saber mais sobre aqueles aborígenes, e ver que tudo que descobri é que, nem mesmo a última expedição que, esporadicamente, esteve ali, no espaço de tempo de 1978 a 1991, sabe nada sobre eles, nem mesmo a língua falada por seus membros. Uma tribo, assim como dezenas, talvez centenas, de outras, que são “protegidas” por órgãos governamentais, mas são desconhecidas por completo.

Vivemos em um cantinho de mundo no qual ouvimos falar em tecnologia, em cidade do futuro, em buraco negro, em bombas atômicas, em extinção da raça humana e tantas outras coisas, que nos esquecemos de olhar para nosso colega ao lado.

Nesta segunda-feira, dia 26/11, o mundo assistiu, maravilhado, a sonda Mars Insight, da Nasa, pousar em Marte e transmitir uma foto absolutamente nítida da superfície do planeta vermelho. Incrível, sem dúvida. Porém, desbravamos o “infinito”, quando não temos sequer compreensão de fatos “corriqueiros” como a Noite Polar e o Crepúsculo Civil do Alasca, em que uma cidadezinha de pouco mais de 2.000 habitantes fica 60 dias sem ver a luz do sol e depois, 80 dias sem ver a noite.

O mundo parece não ter ponto de equilíbrio. De um lado, constrói-se uma capital-estado no meio do deserto, inventa-se uma ilha desenhada, e em seis décadas este lugar se transforma no modelo mais cobiçado do mundo; do outro, pessoas, com arco e flecha, se defendem de suposto inimigo, que poderia lhe roubar a caça do dia. E numa terceira margem, há aqueles que ambicionam ser donos do mundo.

Fico pensando no quanto a Terra é grande e no quão pouco conhecemos dela. Busco entender o uso da tecnologia e o serviço de inteligência. Muitos livros e poemas criticam natureza humana, desigualdade social e outros, mas, quem os lê? A cada dia, mais leitores e menos leitura. Controverso, mas é fato.
Drummond (1976, p. 114) escreve: “O mar entra no living / mal a primeira tinta / do dia se define. / Passa pelo vidro / e em pouco submergem / pessoas e tapetes, / poltronas, gestos, / nomes, / quadros, / vozes. // O mar tudo recobre / sem nada asfixiar. / No côncavo marinho / o ir-e-vir espelha / a vida costumeira / de peixes adestrados / que observam a lei / de viventes em casa”.

Não seria “O mar, no living” a intolerância que se perpetua nas pessoas? Os peixes adestrados não seriam responsáveis pelos muitos tornados, que entornam saúde, criminalidade, feminicídio exacerbado, banalização da vida?

Enquanto Drummond problematiza seu próprio fazer poético, dizendo: “É certo que me repito, é certo que me refuto e que, decidido, hesito no entra-e-sai de um minuto”. [...] (ANDRADE, 1976, p.23). Ele mesmo (1942), espantado de si, deixou seu alter ego questionar sua persona: “[...] E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros [...], que ama, protesta? e agora, José? [...]”.
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