27/10/2018 às 08h00min - Atualizada em 27/10/2018 às 08h00min

​Políticos também têm prazo de validade!

ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA | ANALISTA DE NEGÓCIOS E PROFESSOR UNIVERSITÁRIO

Imagine que você está no supermercado, fazendo suas compras do mês. Você já pegou tudo o que precisa, por preços justos e até mesmo promocionais. Na fila do caixa, você se atenta para um “detalhe”: quase todos os produtos escolhidos por você estão muito próximos do prazo de validade – talvez por isso os preços reduzidos, você finalmente reflete. Ali, prestes a concluir sua compra, você passa a se perguntar: Vale a pena levar para casa tantos produtos com prazo de validade tão próximo apenas porque eles saciam sua necessidade?

Estamos chegando a um momento em que esta reflexão deve ser aplicada em outros setores de nossas vidas. É isso mesmo: estamos falando, mais uma vez, das eleições, processo em que elegemos personalidades políticas para nos representarem nos poderes Legislativo e Executivo. A palavra “político” tem suas origens na Grécia Antiga e representa uma pessoa que se ocupa da política. Nas palavras de Sócrates, o político é um homem público que lida com a chamada "coisa pública"; já para Platão, trata-se de um filiado de partidos ou "ideologias filosóficas de conduta". Em um regime democrático, ou seja, quando incorporado ao Estado pela vontade do povo, o político pode ser formalmente reconhecido como membro ativo de um governo – e, mesmo sem fazer parte dele, tem a capacidade de influenciar a maneira com que a sociedade é governada. 

Tudo muito bonito na teoria. Entretanto, séculos depois dos ditos socráticos e do ápice da democracia ateniense, a classe política foi se distanciando cada vez mais de suas origens e se aproximando com os conceitos de “cacique”, termo cunhado durante a Era dos Descobrimentos para fazer referência aos chefes indígenas das tribos nativas. Basta uma rápida olhada na intensa movimentação por trás das campanhas políticos para comprovar: os partidos estão se mobilizando para formar composições e alianças em busca de apoio para aumentar suas chances de ocupar um cargo público ou permanecer nele – como fazem os caciques mandatários. Chega o momento em que não existem adversários, opositores, desavenças – apenas a sede de poder. Graças a estes comportamentos vergonhosos dos “políticos caciques”, entrar na política tem se tornado sinônimo de “se dar bem”. Em vez de empregados do povo, a classe política assume o posto de chefia.

Chega o momento de invertermos esta lógica, afinal, nosso governo – instância máxima de administração executiva, a liderança de nossa nação – é constituído sob os preceitos da República, do Estado Democrático de Direito e, principalmente, da democracia representativa. Nossos líderes do poder Executivo e Legislativo são eleitos para que possam compor um governo que represente os interesses da maioria da população – principalmente da parcela mais carente de recursos. Em outras palavras, em nosso regime político, a soberania é exercida pelo povo.

Precisamos restaurar a honra da classe política. A honra não em ocupar grandes cargos, vestir roupas caras, adquirir prestígio e receber salários e verbas astronômicas, mas sim a honra sem servir o povo e zelar pelo bem comum. E, para conseguirmos fazer com que os preceitos da democracia representativa prevaleçam, é preciso pensar estrategicamente.

A política é a ciência da governança de um Estado ou Nação, uma arte de negociação para compatibilizar interesses. O trabalho de um político é um dos mais exigentes que existe, pelo seu impacto na vida das pessoas, no bem comum e no desenvolvimento das comunidades. Não podemos deixar que os recorrentes escândalos envolvendo a classe política nos faça esquecer do seu real significado, e muito menos permitirmos que nossa descrença seja responsável pelo surgimento de uma inércia que resultará na entrega, de mãos beijadas, desta tão importante tarefa a pessoas incapacitadas, mesquinhas e egoístas.

O fato é que todo o político, por menor que tenha sido a rejeição que alcançou no seu período de governo, tem um “prazo de validade” para o cargo que ocupa, seja ele de vereador, prefeito, deputado estadual, federal, senador, governadores e até mesmo presidente. Assim como o seu carrinho de compras do supermercado, os políticos podem até te apetecer, mas de nada adiantarão suas compras (ou, no caso, seu voto), se o vencimento estiver próximo – limitando seu aproveitamento. Por isso, lembre-se: POLÍTICOS TAMBÉM TÊM “PRAZO DE VALIDADE"!
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