08/10/2018 às 09h24min - Atualizada em 08/10/2018 às 09h24min

Eleições 2018: decepção e tristeza

ALEXANDRE HENRY
Encerro o 1º turno das eleições 2018 com quase 39°C de febre, no sentido literal da palavra. E encerro triste e decepcionado, embora esse sentimento negativo não tenha nada a ver com esse mal estar trazido pela alta temperatura do corpo. Decepcionado com o país ter escolhido para o 2º turno dois candidatos bem controversos? Também não. Claro, todo mundo tem as suas preferências políticas, mas o meu pesar passa longe do desempenho de Bolsonaro e de Haddad.

Sinto-me mal ao final dessa etapa eleitoral por conta das notícias falsas e, principalmente, do fato de tantas pessoas repassarem conteúdos claramente mentirosos. Eu olho ao redor e vejo familiares, amigos, conhecidos, enfim, muita gente apertando o botão de “encaminhar” sem qualquer reflexão. O problema se agrava quando noto quem são esses repassadores de bobagens. Mais do que pessoas conhecidas, muitos são médicos, professores universitários com doutorado, juízes, advogados, empresários bem sucedidos, engenheiros e toda uma gama de cidadãos que você certamente consideraria como “bem informados”.

Li outro dia em uma revista que esse fenômeno se chama “viés de confirmação”. Deve ter outros nomes, mas gostei desse aí. A reportagem esclarece que, quanto mais comprometido você está com uma teoria (no sentido amplo da palavra “teoria”), mais tende a ignorar evidências contrárias. Diz ainda a revista: “Há até uma região cerebral, o córtex pré-frontal dorsolateral, cuja função é suprimir informações que a mente considere ‘indesejadas’. Tem mais: nosso cérebro libera uma descarga de dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer, quando recebemos informações que confirmam nossas crenças. Somos programados para não mudar de opinião. Mesmo que isso signifique acreditar em coisas que não são verdade”.

A explicação é interessante e faz todo sentido quando você olha, principalmente, as bolhas criadas pelas redes sociais, as quais contribuem de maneira substancial para esse fenômeno a ponto de algumas pessoas passarem o dia repassando mensagens que enaltecem seu candidato ou denigrem o adversário, por mais absurdas que sejam.

Mas, essa explicação científica não retira a minha decepção com as pessoas que vi fazendo isso. Como um professor relativamente jovem da Universidade Federal de Uberlândia, com doutorado e, em tese, uma excelente capacidade de raciocínio, repassa bizarrices? Como uma pessoa de quase 70 anos, com toda uma carga de vida e uma boa formação educacional, toca adiante informações que não fazem a mínima lógica para quem tem um mínimo de consciência? Será que tantos sois e tantas luas não serviram de nada? O que a vida ensinou para uma pessoa assim? Que papel tem a educação, inclusive a superior, no despertar da racionalidade humana, no estímulo ao bom senso, quando tantos donos de portentosos diplomas universitários se prestam a um papel tão pobre?

A minha lamentação não é uma questão pessoal desinteressante para o resto da humanidade. Ao contrário: reflete um grave problema social. Se parcela tão “esclarecida” da população não demonstra a menor capacidade de enxergar o que há de falso por traz de uma mensagem, como as tantas que vi, para onde estamos caminhando? Que mundo é esse que o que mais importa é o que eu acredito e não a verdade? Que maturidade emocional estamos passando para os nossos filhos quando nos deixamos ser guiados o dia todo pela dopamina?

Vou continuar acompanhando tudo nesse 2º turno. Decepcionei-me tanto que, há uma semana, decidi não me manifestar mais em grupos de redes sociais sobre questões políticas, nem ficar publicando no Facebook. Não, não saí de nenhum grupo, por mais barbaridade que eu tenha lido (e continue lendo). Não sou desses que prefere enfiar a cabeça na areia. Eu quero saber o que está acontecendo, até para entender por que as pessoas se comportam assim. Deixar de comentar me fez bem, estou mais calmo, olho menos o celular, embora não tenha deixado de passar raiva. O segundo turno vem aí e vou continuar acompanhando, com um grãozinho de esperança, bem lá no fundo, de que essas pessoas mudem de atitude. Mas, confesso que a chance da minha decepção aumentar é gigantesca. A razão, ao que tudo indica, saiu de férias e não tem data para voltar.

Alexandre Henry Alves - Juiz Federal e Escritor
www.dedodeprosa.com
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