01/10/2018 às 08h16min - Atualizada em 01/10/2018 às 08h16min

E por falar em política...

ALEXANDRE HENRY
Estamos a uma semana do primeiro turno das eleições gerais no Brasil. Em todo lugar, discute-se quem seria o melhor presidente para o nosso país, abafando os debates sobre as escolhas que talvez sejam realmente as mais importantes: deputados e senadores. Sim, no final das contas, são eles que aprovam as leis. Como no Brasil quase todas as medidas mais impactantes para a sociedade precisam ser tomadas por lei, qualquer que seja o eleito para o Palácio do Planalto vai ter que dialogar com o Congresso, caso queira realmente fazer alguma coisa em seu governo. Isso me lembra muito a emblemática frase na vitoriosa campanha presidencial de Bill Clinton, em 1992, que profetizou: “É a economia, estúpido!”. A ideia era a de que o importante mesmo para as eleições não eram temas como a Guerra do Iraque, mas as questões econômicas e seus reflexos para o cidadão americano. Pois parodio a frase e digo: “É o Congresso, estúpido!”.

Feita essa pequena introdução, que nem estava nos meus planos quando rascunhei mentalmente o texto de hoje, passo aos dois pontos que quero discutir. O primeiro deles é uma ampliação das ideias que publiquei nesta semana em uma rede social. Escrevi lá: “Conheço gente inteligente que vai votar no Haddad e gente inteligente que vai votar no Bolsonaro. O mesmo vale para gente pobre, gente rica, homens, mulheres, gays, brancos, negros etc. Há gente de todas as matizes votando em Haddad e em Bolsonaro. Burrice não é votar em um desses dois. Burrice é achar que quem não vota no seu candidato não é inteligente. Cada um tem suas próprias razões para escolher entre A ou B e o mais sensato, democrático e positivo para você e para o país não é direcionar adjetivos pejorativos ao eleitor do candidato adversário. É, sim, tentar compreender por que aquela pessoa fez uma escolha diferente da sua. Quem sabe tendo essa compreensão você não consiga perceber em quais pontos seu candidato poderia melhorar? Conhecer o ponto de vista do outro engrandece a si mesmo. Desprezar as razões do outro reduz a sua própria capacidade de discernimento”.

Eu me refiro, em síntese, à alteridade, que é basicamente você tentar se colocar no lugar do outro – no caso, para tentar entender as suas razões. Você só evolui na medida em que compreende o mundo à sua volta e você só compreende o mundo à sua volta na medida em que consegue entender as razões do outro.

Você pode olhar para os eleitores de Haddad e simplesmente taxá-los de burros ou cúmplices da bandidagem, como tenho visto em muitas manifestações. Ou você pode olhar para os eleitores de Bolsonaro e simplesmente taxá-los de racistas e adoradores da ditadura, como também tenho visto com frequência. Agir desse jeito pode dar a você uma enorme segurança de que seu voto é o melhor. Mas, não ajuda em nada a ganhar uma eleição e muito menos a fazer de você alguém que compreende o mundo de forma mais ampla. Mudar isso é simples e basta trocar afirmações por perguntas. Questione-se: por que tanta gente se dispõe a votar no Haddad, mesmo depois do último governo de seu partido ter terminado sob a sombra de uma das maiores recessões da história? Por que alguém votaria nele se o maior nome do partido está preso? Por que tanta gente está fazendo campanha para o Bolsonaro se ele sempre se destacou apenas por falas polêmicas? Por que uma multidão quer ver como presidente alguém que enaltece a ditadura? Tente buscar respostas para além de termos pejorativos como burro, preconceituoso, ladrão, ditador etc. Talvez você consiga, então, perceber as razões por trás da escolha diferente da sua e, com isso, consiga ver se há razoabilidade ao menos em parte delas. Não precisa concordar, não precisa mudar seu voto. Mas, fazendo isso, você vai conseguir evoluir em um quesito em falta no nosso país nos últimos anos: tolerância. E tolerância, meu amigo, é a base de qualquer democracia.

Bom, terminando essas minhas reflexões políticas, eu só queria ressaltar mais um ponto: para a maioria dos problemas do país, não há uma única e simples solução. Desemprego, violência, má qualidade da educação, corrupção etc., nada disso será resolvido como em um passe de mágica, pois são problemas estruturais que exigem intervenções de toda ordem, intervenções que demoram a surtir efeito. Por que estou dizendo isso? Primeiro, para que você rejeite propostas simplistas, sejam elas à esquerda ou à direita. Segundo, para que você se prepare para 2019, já que, independentemente de quem ganhar as eleições, os desafios exigirão muito mais do que um discurso de campanha que reduz os problemas brasileiros a simples frases de efeito.

Alexandre Henry Alves - Juiz Federal e Escritor
www.dedodeprosa.com
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