10/09/2018 às 09h26min - Atualizada em 10/09/2018 às 09h26min

O futuro perdido

ALEXANDRE HENRY
Eu gosto muito de viajar e isso me leva, inevitavelmente, a comparar outros países com o Brasil. No geral, ainda considero minha terra natal um dos melhores lugares para se viver no mundo, ainda que tenha todos os problemas que estamos cansados de ver todos os dias. Mas, hoje, eu quero falar um pouco da parte ruim mesmo – e nem é da violência e da corrupção de sempre.

Às vezes, eu penso que nosso subdesenvolvimento se deve ao fato de sermos um país novo. Escrevo este texto às margens do rio Danúbio, na Áustria, e mais de uma vez por aqui me peguei pensando que não é justo cobrar do Brasil o mesmo nível de desenvolvimento se eles têm séculos de existência a mais do que nós. Muitas construções por aqui são da época em que o Brasil nem havia sido descoberto pelos europeus. Ora, é claro que eles deveriam ser bem mais desenvolvidos do que a gente, não? É o mesmo – segundo pensei por muito tempo – que comparar o conhecimento acumulado por um garoto que ainda está no 1º ano de escola com alguém que acabou de defender seu doutorado.

O problema é que existem os Estados Unidos da América, a Austrália e a Nova Zelândia, nações tão novas quanto o Brasil que são o que são. Por outro lado, há outros países tão ou mais antigos que a Áustria que não chegam perto de seu desenvolvimento. Pronto, minha tese foi para o lixo. Não dá para explicar nosso atraso com base na idade do país. Aí você vai me dizer que é problema da colonização, de quem veio para cá, da forma como Portugal tratou o Brasil e a Inglaterra tratou os três países que citei, enfim, você vai me dizer que é por causa disso. Provavelmente seja por isso mesmo, mas o que importa agora é olhar para frente, você não concorda comigo?

Aí entra o lado ruim que citei no começo deste texto. Nosso futuro já está parcialmente perdido, o que me deixa extremamente triste. O problema, para além da política e da corrupção, é que estamos perdendo o bonde da história no que diz respeito à tecnologia e à inserção no mercado mundial. Para começo de conversa, não sabemos falar inglês e damos pouco valor a isso. Quase todos os brasileiros que conheço e que dizem falar inglês mal conseguem pronunciar algumas frases tortas e, se colocados diante de um programa de TV em inglês, certamente não entenderão quase nada. Já a China, por sua vez, tem mais estudantes de inglês do que os próprios países em que essa língua é nativa. Isso significa que o chinês não esteja dando valor para a sua própria cultura, para o seu próprio idioma? De maneira alguma. Isso significa, na verdade, que os chineses perceberam que falar inglês é essencial para ganhar espaço no mundo de hoje. Mesmo que eles estejam conquistando um espaço gigantesco no mercado mundial, o fato é que o resto do mundo já escolheu o inglês como língua de negócios e, mais do que isso, a revolução tecnológica tem suas bases no idioma falado pelos americanos. Afinal de contas, você já teve contato com alguma linguagem de programação? Em que língua o código é redigido?

Não falarmos inglês significa então que nós perdemos lugar no mercado mundial (inclusive o de turismo) e, principalmente, significa uma dificuldade maior de aprender a criar os códigos que geram softwares e aplicativos. Para piorar nossa situação, são pouquíssimos os brasileiros que estão aprendendo programação de computadores. Obama, o ex-presidente americano, disse há alguns anos: “Não apenas compre um novo videogame, desenvolva um. Não apenas faça o download de um aplicativo, ajude a desenvolvê-lo. Não apenas jogue no seu celular, programe”. Em outra ocasião, ele disse o seguinte: “Saber programar um computador hoje é tão básico quanto saber ler, escrever e fazer contas e deve ser ensinado em todas as escolas”. Por conta disso, uma quantidade significativa de escolas americanas já tem em seu currículo disciplinas ligadas ao ensino das linguagens de programação. E nós?

Em resumo, fora todo o problema educacional que temos, incluindo as falhas gigantescas no Ensino Básico e a ineficiência do Ensino Superior, ainda temos esses dois problemas que sufocam nosso futuro. Não saber falar inglês e não saber linguagem de programação praticamente nos tira a chance de ser um país de ponta no futuro próximo, pois essas duas ferramentas são absolutamente essenciais. Para chorar de vez, o que se vê na atual campanha presidencial são discursos vagos sobre educação, os quais passam longe de problemas específicos como os que citei. Pior para nós, infelizmente, pois isso indica que realmente estamos perdendo nosso futuro mais uma vez.

Alexandre Henry Alves - Juiz Federal e Escritor
www.dedodeprosa.com
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