30/07/2018 às 12h25min - Atualizada em 30/07/2018 às 12h25min

A incrível história do homem que pensava ser milho

WILLIAM H STUTZ | COLUNISTA

Toda cidade tem uma, duas ou mais, figuras exóticas. Aquelas que, por falta de criatividade ou atenção, comumente chamamos de loucos, doidos, desmiolados e tais. Posso apostar, puxe da memória de sua infância/adolescência. Lá em algum canto de sua história de vida irá encontrar um personagem, na opinião da maioria, burlesco. O motivo que os leva a assim ficarem é difícil saber. Talvez o excesso de realidade os conduza a caminhos de fantasia mais prazerosa.
 
Quem nasceu em Ouro Preto ou visitou a cidade, há de se lembrar de Dona Olímpia pessoalmente ou de suas histórias. Olympia Angélica de Almeida Cotta, de família abastada, andava por toda cidade a contar histórias por alguns trocados, com roupas lindamente extravagantes, modelo século XVIII, estranhas, sem nada a combinar. Sempre com chapéu enorme, coberto por flores, maquiada e inúmeros colares. Carregava um cajado de ponta florida, sempre sorridente e solícita. Rita Lee a nomeou a primeira hippie do Brasil. Ganhou versos de Drummond e música de Milton Nascimento. Foi tema até de samba-enredo da Mangueira e, se não me engano, a Verde-Rosa ganhou o carnaval aquele ano.
 
Contam que pediu licença do que muitos consideram realidade, em decorrência de uma desilusão amorosa. Ainda em Ouro Preto temos a inesquecível figura de Bené da Flauta. Sobre tão pura pessoa certa feita escrevi:
 
Bené da flauta, com seus bichinhos esculpidos com pequeno canivete em pedra sabão.
 
Dando vida a elefantes africanos/indianos, vaquinhas, e muitos, muitos outros que existiram apenas em sua imaginação.
Se houve certo dia a arca de Noé,
Para sempre lembrança da lata de Bené.
 
Pouco falar, mais a comunicar com sorrisos, gestos e sons da alma, sempre calma.
 
Foi-se em cortejo de anjos barrocos, às portas do céu bateu.
 
— Entra Bené, a casa é sua, pois como santo em terra sempre viveu.
Rôta roupa em iluminado manto luz se transformou.
 
Abrindo sorriso imenso Bené da flauta quase de alegria a chorar, soltou seus bichinhos mundo afora, agora a puro cantar.
Nem no céu Bené quis falar. Tomou da flauta, sua voz e ao vento semeou cantigas de passarinhos, que até hoje se espalham no tempo em carinho.
Eternizados em lembranças das gentis gentes que o conheceram e dele guardam até hoje suas criações.
Sensíveis e raras que são, transmutam vaquinhas, ursos, leões em sonhos, lembranças, alegria/harmonia em corações.
 
Onde Bené passava, ficava leveza. Pés descalços na pedra lavrada. Íngremes ladeiras, seus corredores, morada.
Lá vem o Bené da Flauta, lá vem, escoltado por cortejo de anjos e querubins. Bené da lata, a arca de Bené.
Pureza sua, viva mais um pouco que seja, em mim.
 
Mas aqui quero é recontar história a mim passada por Mestre na vivencia e na arte de contar. Sua sensibilidade para as artes é indicador de visão aberta de vida, sobre a qual tem um olhar diferenciado, mais apurado/aguçado, livre dos preconceitos e da intolerância que tanto atrapalham o crescimento humano. Assim me foi passado, assim a vocês floreio e reconto. Agradeço Mestre por mais esta memória confiada.
 
A cidadezinha se perdia entre serras e vales. Era um quase nunca para chegar, mas a viagem valia a poeira, lama e pontes quebradas, dada a imensa beleza proporcionada por matas, cachoeiras e riachos piscosos de lambaris graúdos. As matas preservadas eram patrimônio de todos que delas com zelo vigiavam. Bichos e gentes em harmonia. Casas poucas, gente quase só crianças e seus sábios velhos, sempre a observarem tudo da mercearia ou da praça.
 
Para fazer valer a tradição, a currutela tinha também seu desmiolado, sem eira nem beira, que era carinhosamente acolhido por todos. Hora almoçava na casa de um, hora de outro. Sempre tinha café da manhã garantido e janta não faltava quem lhe proporcionasse. Em troca, mas sem cobrança, carpia terreno aqui e ali, varria calçadas, levava encomendas.  Dependendo da lua a única coisa que não fazia de modo algum era entrar em quintal onde houvesse galinha. É que nesses períodos cismava que era milho. Milho mesmo! Grão de espiga. O medo de ser comido por bicho de pena tomava conta. Mal saia às ruas, aliás duas apenas, resto era campo, mata e pasto, que o medo de pomba do bando, maritaca ou outro comedor de milho se apoderava dele.
 
O pessoal da cidadezinha, conhecedor da história, evitava falar do assunto, mas a criançada não deixava barato. Olha a galinha! Sêo Manuel Sola, por esse nome foi batizado. Ele corria a se esconder em pavor. Molecada a rir de rolar no chão. Condoídos com tamanho sofrimento, resolveram juntar-se e enviar Manuel Sola para Belo Horizonte, para tratamento psiquiátrico.
 
Assim o tempo modorrentamente foi passando, preguiçoso pelas bandas daquela pequena cidade e Manuel do milho quase sendo esquecido.
Foi quando a notícia de seu retorno correu como pé de vento serra acima, até dar na terrinha. Alvoroço e expectativa. Será que Manuel Sola se curou da mania de ser milho? Prepararam festança com cantoria, comida e bebida a ufa, para recepcioná-lo.
Foi só o trem encostar na estação e o homem altar, claro que tem trem! Estamos em Minas, que  Manuel, nos ombros do povo, foi carregado para a torda onde a festança já rolava solta.
 
Todos vinham perguntar: E aí Manuel, você ainda é milho? Ele rapidamente respondia: ─ Que milho que nada! Tá doido? Nunca fui milho, sou muito é gente humana! E assim foi. Todos felizes com a cura do moço.
Lá pelas tantas, dia querendo amanhecer, esse um, muito tonto de tanta cachaça, chega bem pertinho dele e cochicha:
─ Conta aqui Manuel, só prá mim. Você tem certeza mesmo que não é milho?
─ Mas que história de ser milho é essa? Sou gente, sou planta não! Resposta indignada!
─ Então explica. Tô te observando a noite toda, você rodou por tudo que é canto, mas quintal  nenhum beirou, e ai?
Manuel Sola cambaleou da pinga um pouco, cabreiro, olhando para os lados e respondeu baixinho, bem pé de orelha:
─ Seguinte, eu sei que muito bem que não sou milho, mas me será que as galinhas sabem?
 
 

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