14/05/2018 às 08h00min - Atualizada em 14/05/2018 às 08h00min

​O fim do Dia das Mães

ALEXANDRE HENRY | COLUNISTA
 
Muitas escolas de Uberlândia estão deixando de comemorar o Dia das Mães. A razão? Há crianças que perderam as mães, seja por morte ou abandono, e há crianças de casais do mesmo gênero. Por isso, realizar uma homenagem no Dia das Mães poderia gerar um sofrimento desnecessário a esses meninos e meninas, razão pela qual o melhor é não fazer nada.

Sinceramente, não sei aonde queremos chegar com atitudes assim. Minha mãe faleceu quando eu tinha sete anos. Meu pai se casou novamente e considero que ganhei uma nova mãe. Mas, dentro da ideia que tem feito com que escolas não mais comemorem o “Dia das Mães”, eu continuei órfão, já que não tinha aquela figura que biologicamente me gerou. É verdade que o segundo domingo de maio nunca foi uma data absolutamente feliz para mim. Se tem uma coisa que arrebenta com qualquer criança é perder a mãe logo cedo, como foi o meu caso. Mas, mesmo sentindo uma dor muito grande a cada mês de maio, eu nunca, mas nunca mesmo, desejei que a minha dor impedisse que as demais crianças tivessem um momento de alegria na escola, encontrando lá, em eventos especiais, as suas amadas mamães.

Eu me considero uma pessoa bem à esquerda no tocante a questões comportamentais e sociais. Na economia, podem até me chamar de neoliberal ou coisa do gênero, ainda que eu também apoie algumas políticas que não agradam os donos do dinheiro. Mas, tratando-se de comportamento humano, minha visão tende a ser bastante tolerante com evoluções sociais, questões de gênero, respeito às minorias e outros temas sensíveis à esquerda. Se há algo que não sou é conservador nesse campo.

Porém, não gosto de exageros, não gosto da falta de bom senso, não tolero radicalismos e não vejo com bons olhos qualquer política que, sob a justificativa de proteger uma minoria, extrapole as boas intenções para menosprezar tudo o que não se encaixe nos critérios daquela minoria. Além disso, não acredito em bolhas emocionais. Tenho uma filha de quatro anos e tudo o que eu não quero é que ela sofra nessa vida, mas eu estou 100% seguro de que ela não chegará à idade adulta sem um bom histórico de decepções, lágrimas e frustrações em geral. A vida não é um mar de rosas, até porque, se fosse, haveria também os espinhos, já que não existem rosas sem roseiras.

Juntando essas duas convicções que carrego, tendo a rejeitar políticas como essa de não realizar homenagens no Dia das Mães só porque algumas crianças não podem contar com a figura materna tradicional. Sim, vamos ampliar o conceito de “mãe” nessas comemorações. A avó que cuida do neto é mãe em dobro e merece estar ali. No casal do mesmo gênero, certamente há um que incorpora de maneira mais forte a imagem materna e que certamente vai ficar feliz por participar daquela homenagem. Enfim, vamos ter bom senso, vamos nos adaptar aos novos tempos, abrindo a mente para uma realidade que há muito já extrapolou aquele padrão de família papai/mamãe/filhinhos. Por outro lado, sempre haverá uma criança ali sem alguém que faça as vezes da figura materna. Paciência. Há muito mais gente que carrega tragédias pessoais do que podemos imaginar em nossas bolhas emocionais.

O que não se pode fazer é discriminar uma criança por ela não ter mãe, é fazer gozação com a sua situação de órfã, é não dar um pouco mais de apoio psicológico para um pequeno ser humano que, sem seu maior esteio, certamente vai enfrentar mais dificuldades para se tornar um adulto emocionalmente sadio. Porém, acabar com comemorações do Dia das Mães não é o caminho correto, até porque isso pouco ou nada faz por aquela criança que é órfã, servindo apenas para que os “sortudos” não se sintam culpados por seus filhos ainda terem uma mãe. Além disso, pode abrir espaço para uma situação ainda pior para os órfãos, jogando sobre eles o peso de terem impedido uma comemoração feliz só porque eles não poderiam participar dela.

Chega de exageros no campo do comportamento humano e da proteção às minorias. Combatamos discriminações, sim, mas também combatamos a falta de bom senso que leva a polarizações desnecessárias, que busca apenas amenizar dores de consciência de uma maioria sem contribuir efetivamente para a proteção daquela própria minoria. Deixemos de lado a falsa ilusão de que a vida não tem dores ou tragédias, de que é possível proteger tudo e todos de qualquer tipo de sofrimento. Isso não é evolução, sinceramente. Há lágrimas que são inevitáveis, infelizmente. Querer enxugar as lágrimas de alguém impedindo outro alguém de sorrir não fará nenhum dos dois mais feliz.
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