01/05/2018 às 13h04min - Atualizada em 01/05/2018 às 13h59min

O que a ciência nos diz sobre o trabalho?

ANGELA SENA PRIULI | COLUNISTA

"Escolha um trabalho que você ame e não terás que trabalhar um único dia em sua vida." Você já deve ter ouvido o provérbio do sábio pensador e filósofo chinês Confúcio. Essa máxima romântica, mas verdadeira, nos cai como um desafio dos grandes quando tentamos associar nossas vidas de hard working ao prazer.

Onde entra a ciência nessa história toda? Ao questionar e investigar "o quanto" e "se" o trabalho nosso de cada dia influencia na saúde e nas relações familiares. Vejamos...

1. Só amar o que faz é suficiente?

Seja você um engenheiro, uma enfermeira ou um funcionário de call center, é provável que você gaste, em média, um terço do seu dia no trabalho. Em uma pesquisa de larga escala que incluiu 58 estudos com mais de 19 mil pessoas do mundo todo, psicólogos mostraram que a maneira como nos identificamos com as pessoas ou organizações onde trabalhamos está associada a uma melhor saúde e um menor desgaste. Se por um lado muita gente pensa que o trabalho perfeito é aquele que se encaixa às suas habilidades, este estudo mostra que tanto a performance, quanto a saúde fisiológica e o bem estar mental são aumentados quando os colegas de trabalho compartilham a sensação de pertencer àquele grupo, de poder chamar um lugar de "seu" e as pessoas de "nós". Daí eu te pergunto: você ama seu trabalho só porque ama o que faz ou também porque curte quem faz junto com você?

2. Trabalho & filhos: uma questão de timing

As cargas de trabalho têm ficado cada vez mais variadas, pois temos diferentes turnos, tipos de serviços que exigem que se trabalhe à noite, ou ainda por mais de 8h por dia, por ex. Sobre esse tema, uma pesquisa com quase 2 mil adolescentes mostra que quando ambos pais e mães trabalham fora do horário convencional - 9h às 17h - pode haver um prejuízo nas suas relações pais/filhos, levando ao afastamento entre eles e até mesmo à prática de atos delinquentes por parte dos filhos. Por outro lado, de forma curiosa, os pesquisadores também descobriram que nas famílias em que apenas a mãe trabalha em horário não convencional (e o pai em horário convencional), há uma maior aproximação na relação pais/filhos. A partir dessas evidências, já estou aqui pensando sobre como faço na minha casa!

Independentemente de como for na sua casa, me parece que trabalhar com foco e chegar logo em casa para dar e receber carinho dos filhos pode ser uma boa pedida!

3. Trabalho duro & amor: dá certo?

Sempre nos foi dito que quanto mais você trabalha, mais difícil fica manter as relações românticas. No entanto, um novo estudo encontrou o oposto: que não há, de fato, associação negativa entre as horas trabalhadas e a satisfação no relacionamento. Examinando as associações entre tempo de trabalho dos participantes (285 casais), vidas privadas e felicidade em seus respectivos relacionamentos, os pesquisadores descobriram que os casais compensavam o tempo perdido com seus trabalhos aproveitando ao máximo o tempo que tinham após o turno. Nesse caso, o senso comum e suas máximas caíram por terra, pois quando a gente quer, a gente ama nosso trabalho e nossa metade!

Fontes:
Steffens et al. A Meta-Analytic Review of Social Identification and Health in Organizational Contexts. Personality and Social Psychology Review, 2016.
Hendrix & Parcel. Parental Nonstandard Work, Family Processes, and Delinquency During Adolescence. Journal of Family Issues, 2013.
Unger et al. The longer your work hours, the worse your relationship? The role of selective optimization with compensation in the associations of working time with relationship satisfaction and self-disclosure in dual-career couples. Human Relations, 2015; 68 (12): 1889.
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