16/04/2018 às 12h05min - Atualizada em 16/04/2018 às 12h05min

A ocasião e a autorreflexão

ALEXANDRE HENRY ALVES | COLUNISTA

Há um programa muito bacana da NPR (National Public Radio), uma organização de comunicação social pública dos EUA, que se chama Hidden Brain. Recomendo bastante para quem gosta de estudos sobre o comportamento humano e deseja treinar sua audição em inglês, pois esse programa permite fazer as duas coisas ao mesmo tempo e com bastante qualidade. Procure na internet e você encontrará o acesso gratuito a todo o conteúdo.

Nesta semana, o Hidden Brain tratou de um conjunto de temas bem interessantes: mentira, honestidade e desonestidade. O episódio recebeu o título de “Everybody lies, and that’s not always a bad thing”, o que, em uma tradução livre, significa “Todo mundo mente e isso nem sempre é algo ruim”. Foram trabalhados dois blocos, sendo um das mentiras “ruins” e outro das mentiras “boas”. Fiquemos com as ruins, algo muito caro a todos nós brasileiros nestes tempos de política conturbada e de fake news.

Entre outros pontos, o programa fez referência a dois estudos relativos aos temas que citei. Um deles concluiu que o que separa as pessoas honestas das pessoas desonestas não é necessariamente o caráter, mas a oportunidade. Basicamente, provou-se cientificamente o ditado de que a ocasião pode fazer o ladrão. Outro estudo indicou que a atitude desonesta não é acompanhada apenas pela avaliação de quanto se pode ganhar, do risco de ser pego e de quais são as eventuais penas se tudo der errado. Ela é acompanhada também da avaliação que cada um faz de si mesmo, da capacidade de se olhar no espelho e se sentir ou não uma pessoa pior do que a média. Enfim, da autorreflexão sobre o próprio comportamento.

Essas duas teses me levaram a pensar algo bastante lógico – e me perdoe se estou dizendo o óbvio: o meio em que se vive realmente tem uma influência gigantesca sobre como cada um age em termos de honestidade. Se o seu meio propicia com mais facilidade o cometimento de atos desonestos, seja pelas circunstâncias ao seu redor, seja pelas pessoas com as quais você convive, há uma chance bem maior de você cometer um ato ilegal ou imoral. Lembre-se: a ocasião faz o ladrão e, portanto, quanto mais ocasiões aparecerem à sua frente, maiores serão as chances de você se tornar um ladrão. Por outro lado, a autoavaliação de caráter é feita com base na comparação com o caráter dos que estão à sua volta. É aquele negócio: se quase todos os seus conhecidos mantêm casos permanentes de infidelidade, com fugas rotineiras para tardes de sexo extraconjugal em pleno dia de semana, o beijo que você deu na sua colega de trabalho provavelmente não vai fazer você se sentir muito pior frente ao espelho. “Se fulano de tal vai para a cama toda semana com a amante, não sou eu uma pessoa ruim só porque beijei a minha companheira de escritório” – é o que a maioria pensaria ao se olhar no espelho.

Claro, há quem não aja desonestamente mesmo diante das melhores oportunidades para cometer ilicitudes ou mesmo que cercado apenas de pessoas que agem desonestamente o tempo todo (lembrando que o “agir desonesto” nem sempre significa cometer um crime, podendo ser um ato mais simples). Mas, os estudos citados no episódio do Hidden Brain dão embasamento científico para a máxima de que o meio ao seu redor pode influenciar de maneira muito forte o seu comportamento.

Qual é a conclusão? Mesmo que você nunca se veja agindo de forma desonesta, procure estar entre pessoas que privilegiam o comportamento honesto, que possuem valores positivos para a sociedade.
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