27/11/2017 às 05h19min - Atualizada em 27/11/2017 às 05h19min

Assédio

ALEXANDRE HENRY ALVES | COLUNISTA

Explodiram as denúncias de assédio sexual envolvendo famosos nos Estados Unidos. Políticos, empresários, artistas, não escapa ninguém. Já entraram na lista o produtor Harvey Weinstein, os atores Dustin Hoffman, Ben Affleck e Kevin Spacey, o diretor Oliver Stone, o candidato ao Senado Roy Moore, o jornalista Charlie Rose e vários outros nomes conhecidos. Alguns perderam contratos e o emprego.

Como acompanho os jornais americanos para treinar o meu inglês, acabo sabendo dos detalhes das acusações. Muitos casos são graves e estão na zona cinzenta, se aplicássemos o Código Penal brasileiro, entre o assédio (praticado mediante constrangimento, pela posição que quem assedia ocupa) e o estupro (praticado mediante violência ou grave ameaça). Já outros casos são mais “leves”, se é que assim se pode dizer. Esses casos mais “leves” não seriam considerados comportamentos indevidos há algumas décadas, pelo contrário, representariam uma demonstração do “invejável” lado caçador do homem, capaz de conquistar presas femininas (ou não) em qualquer lugar ou situação.

Os tempos mudaram. Particularmente, acho que algumas denúncias que tenho visto por lá carecem de credibilidade. Mas, a maioria me parece séria e, mesmo quando não representam atos de estupro, são absolutamente condenáveis. Charlie Rose, por exemplo, o famoso jornalista do programa “60 Minutes”, foi acusado de ter apalpado sem consentimento as pernas de várias mulheres, algumas vezes na parte superior da coxa. Aliás, essa é a acusação mais comum: toques em lugares indevidos, sem que a outra pessoa tenha consentido.

Uma atitude assim não tem mais cabimento no mundo atual (era para nunca ter tido). Cada um é dono do próprio corpo e tem o direito exclusivo de decidir o que vai fazer com ele, principalmente quando se fala em contato físico com outras pessoas. Ninguém pode te obrigar nem mesmo a um aperto de mão, que dirá a um toque em regiões mais íntimas. Por outro lado, consentimento obtido mediante abuso da condição de superioridade, como é o caso dos patrões e chefes em geral, não é consentimento de verdade, mas constrangimento. É patético se valer de sua condição de superior hierárquico para obter qualquer coisa relacionada a sexo, além de ser um crime, é claro. No amor ou na guerra, o encontro justo é aquele entre partes iguais.

Você deve estar se perguntando como alguém faz para começar um relacionamento nos dias de hoje, em que um simples gesto pode ser interpretado como assédio sexual. Já escrevi sobre isso há um tempo. Realmente, é preciso ter muito cuidado, pois a aproximação romântica exige a superação de algumas barreiras que, se não forem bem compreendidas por ambas as partes, podem levar uma delas a interpretar aquilo como um ato indevido. Em melhores palavras, para você colocar a mão na coxa dele ou dela, é preciso saber se a outra parte quer aquilo, de livre e espontânea vontade. Para um beijo, idem. Para algo além de um beijo, muito mais. Porém, resta a questão: como saber se a outra pessoa realmente deseja dar um passo adiante?

Não sou conselheiro amoroso e muito menos expert no assunto. Minha opinião vem da observação do mundo ao meu redor e, principalmente, do aconselhamento com o maior sábio que existe: o Dr. Bom Senso. Dito isso, acredito que qualquer contato além do formal deve começar pelo olhar. Sim, o olhar! É ele que costuma abrir as primeiras portas para um relacionamento mais íntimo. Se você olhou para a outra pessoa e ela desviou o olhar, não é um bom começo. Se tentou novamente e novamente ela desviou, é provável que não queira nada com você. Além dos olhos, o diálogo que se inicia de maneira descompromissada e vai caminhando para temas mais íntimos, embora ainda sem qualquer conteúdo sexual, é uma excelente pista sobre os desejos da outra pessoa. Se o olhar e o papo indicarem que vocês dois podem ser mais do que apenas amigos, então talvez o toque possa ser o passo seguinte.

Isso tudo não é chatice, não é bobagem. Coloque-se no lugar de quem tem que aguentar uma pessoa insistente, pegajosa e que começa a te tocar sem que você queira. É ruim, com toda certeza. Por isso, fazer a coisa certa é dar os passos com calma, de maneira segura quanto ao desejo da outra pessoa. Na dúvida, se achar que pode ser uma cilada, troque mensagens por escrito e arquive. Mas, na maioria dos casos, se for para acontecer alguma coisa além da amizade, você saberá logo no começo, seja para continuar, seja para parar.

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