13/11/2017 às 05h08min - Atualizada em 13/11/2017 às 05h08min

Sobre o tal de politicamente correto

ALEXANDRE HENRY ALVES* | COLUNISTA

Eu já escrevi alguns textos falando da hipersensibilidade da geração atual, chamada por alguns de “Geração Mi-Mi-Mi”. Parece que qualquer coisa fere, que qualquer palavra magoa, que qualquer gesto é uma ofensa. Aos poucos, a gente vai ficando sem saber como se comportar em relação a temas banais do cotidiano, tudo por medo de dizer algo que possa ser considerado como ofensivo. Essa situação revela, a meu ver, uma fragilidade emocional da maioria das pessoas no mundo atual, que não conseguem enfrentar os problemas que a vida traz.

Porém, nem tudo é “mi-mi-mi” e quem sabe bem disso é quem sofre na pele uma ofensa verdadeira. Peguemos o caso do jornalista William Waack, da Globo, afastado recentemente por conta da divulgação de um vídeo em que ele teria feito comentários racistas contra negros. Faz tempo que acompanho os programas dele e fiquei, ao mesmo tempo, triste e surpreso com o vídeo e com seu afastamento. Mas, achei a atitude da Globo necessária.

Eu disse isso em uma postagem no Facebook. Uma pessoa discordou da minha fala, tecendo argumentos sobre censura e sobre a “Geração Mi-Mi-Mi”. Porém, esse caso não é de hipersensibilidade. Dizer que uma atitude condenável é “coisa de preto” é ofensivo. Às vezes, para quem não é negro, pode parecer uma banalidade. Mas, quem sente na pele a discriminação cotidiana sabe muito bem que, por trás de comentários assim ou de piadas racistas, esconde-se um comportamento que segrega e inferioriza quem não tem a pele branca. Duas pessoas me falaram sobre isso, após a minha postagem. Uma delas se tornou pai, por adoção, de uma criança negra. Disse-me que passou a entender claramente a razão dessas “piadas” terem que deixar de existir. A outra é uma amiga, branca, casada com um negro há mais de duas décadas e sofrendo preconceitos cotidianos até hoje.

Falo de mim, agora. Eu sempre me vi como uma pessoa com estabilidade emocional, não suscetível facilmente a ofensas ou abalos psicológicos. Filho do meio é assim, aprende a ser mais resistente aos problemas da vida, a sobreviver sozinho. Pois bem, outro dia, eu estava lendo histórias de fadas para a minha filha, antes de dormirmos. Uma delas era a história da Fada Mona, uma fada muito chata, que gostava de ficar mandando nas amigas. Como era a imagem da Fada Mona? Uma menina de óculos. Eu uso óculos há mais de uma década e, por mim, não veria qualquer problema nesse fato. Mas, justamente na semana em que li a história para a minha filha, ela começou a usar óculos por conta de um problema de visão que a deixava, além de tudo, estrábica. Vínhamos tentando mostrar para a nossa pequena, que tem apenas quatro aninhos, que usar óculos é algo normal e bom. Sinceramente? Eu me senti mal. Por que a única fada de todo o livro que era considerada chata e mandona usava óculos? Por que as demais fadas não usavam? Qual é a razão de associar o uso de óculos, sempre, a pessoas “certinhas”, chatas, CDF’s?

Eu vou ensinar a minha filha a ser forte diante das adversidades normais da vida, diante de coisas que, em tese, podem machucar. Não quero uma menina hipersensível, que não controla as próprias emoções. Ela passou a ter um problema de visão e desejo que aprenda a não se irritar se alguém disser que ela é “zarolha” ao invés de estrábica, que é a palavra mais adequada. Também não pretendo repreender ninguém por falar assim, especialmente se for uma pessoa com pouco estudo, que sempre esteve acostumada com essa palavra. Enfim, sem excesso de sensibilidade, embora eu ache que o bom senso indique não fazer nenhum comentário sobre um problema físico de outra pessoa, muito menos usando uma terminologia que não é a mais agradável. Por outro lado, voltando ao livro da Fada Mona, também não tomarei nenhuma atitude contra os autores ou a editora por colocarem óculos apenas na fada chata da história.

Mas, se o caso da minha filha é bem mais simples, até porque dificilmente ela vai ter algum prejuízo real na vida por ter esse problema de visão, isso não significa que eu não vá me tornar mais atento ao que eu mesmo digo e que pode machucar outra pessoa, ou que eu não vá combater estereótipos, como o de colocar óculos em um personagem chato. Busco o equilíbrio: nem sensibilidade em excesso, nem desprezo a uma evolução necessária da humanidade, rumo a uma convivência mais tolerante e respeitosa. Mas, quanto a outros comportamentos, especialmente os racistas e preconceituosos, aí não há meio termo: já passamos da fase da tolerância e entramos em uma era na qual isso é inaceitável, devendo ser punido. Não é excesso do politicamente correto ou expressão de uma “Geração Mi-Mi-Mi”. Definitivamente, não é.

(*) Juiz Federal e Escritor - www.dedodeprosa.com

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